"O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz."
(Eugénio de Andrade)
quinta-feira, novembro 12, 2009
Espera
"Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça."
(Eugénio de Andrade)
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça."
(Eugénio de Andrade)
quarta-feira, novembro 11, 2009
A um jovem poeta...
"Não me peças prefácios, nem juízos, nem conselhos,
Que me sinto empurrado
Para o trono dos velhos,
E coroado embalsamado!
Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim?
Que darei eu do que ninguém me deu?
Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim,
Cada qual ganhe belo o seu.
Chegar, nunca se chega ao píncaro sonhado!
Mas, se mais ampla já se nos anima
A linha do horizonte, – é o ganho dum pássaro
Deixando esfarrapado monte acima.
Nenhum caminho tem nenhum que se lhe iguale.
Meu – foi o meu suor; meus – os meus pés descalços.
Sofrer – só a quem sofre vale.
E o mais que se aprendeu são oiros falsos!
Ainda só há sol e azul pelos espaços
(Até se qualquer sombra lhes embace a quietude)
Diante desses passos
Que pedes que eu te ajude.
Pois vai! pois vai, sozinho, até que o sol se ponha,
Se entenebreça o azul, as aves emudeçam,
E tremam as estrelas, na medonha
Solidão onde, ao fim, desapareçam…
Sob, enquanto as houver, raríssimas estrelas,
Cava, na solidão, a terra escura,
E talvez venham a ser belas
As rosas, sobre a tua sepultura.
O que possas ganhar, tê-lo-ás, assim, ganhando,
Quando, perdido tudo o que era de perder,
Tombes, ao fim do descampado,
Sabendo que ninguém te pode socorrer…
Ninguém! Eu, menos que os demais,
Eu, que te perco, já, na curva do caminho,
E só te sei dizer adeuses tais
Que só te deixem mais sozinho.
Porque tu é que és tudo! a terra a cultivar,
A mão cultivadora, o arado da cultura,
O grão a semear,
O próprio fruto, – grão da mão futura.
Pois lavra-te, és o chão! emprega-te, és o braço!
Semeia-te, és o grão!
Floresce, frutifica, extingue-te! e, no espaço,
Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…
Entanto, se algum dia, por acaso,
Voltando à minha porta, me chamares,
Talvez, à tarde, ante esse imenso campo raso,
Possa eu ouvir os teus cantares.
Vendo, então, nos meus olhos, qualquer brilho,
Sentindo, em minha voz, tremer um alvoroço,
Vai-te embora feliz, meu irmão e meu filho!
Já te dei tudo quanto posso!"
(José Régio, A Chaga do Lado)
Que me sinto empurrado
Para o trono dos velhos,
E coroado embalsamado!
Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim?
Que darei eu do que ninguém me deu?
Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim,
Cada qual ganhe belo o seu.
Chegar, nunca se chega ao píncaro sonhado!
Mas, se mais ampla já se nos anima
A linha do horizonte, – é o ganho dum pássaro
Deixando esfarrapado monte acima.
Nenhum caminho tem nenhum que se lhe iguale.
Meu – foi o meu suor; meus – os meus pés descalços.
Sofrer – só a quem sofre vale.
E o mais que se aprendeu são oiros falsos!
Ainda só há sol e azul pelos espaços
(Até se qualquer sombra lhes embace a quietude)
Diante desses passos
Que pedes que eu te ajude.
Pois vai! pois vai, sozinho, até que o sol se ponha,
Se entenebreça o azul, as aves emudeçam,
E tremam as estrelas, na medonha
Solidão onde, ao fim, desapareçam…
Sob, enquanto as houver, raríssimas estrelas,
Cava, na solidão, a terra escura,
E talvez venham a ser belas
As rosas, sobre a tua sepultura.
O que possas ganhar, tê-lo-ás, assim, ganhando,
Quando, perdido tudo o que era de perder,
Tombes, ao fim do descampado,
Sabendo que ninguém te pode socorrer…
Ninguém! Eu, menos que os demais,
Eu, que te perco, já, na curva do caminho,
E só te sei dizer adeuses tais
Que só te deixem mais sozinho.
Porque tu é que és tudo! a terra a cultivar,
A mão cultivadora, o arado da cultura,
O grão a semear,
O próprio fruto, – grão da mão futura.
Pois lavra-te, és o chão! emprega-te, és o braço!
Semeia-te, és o grão!
Floresce, frutifica, extingue-te! e, no espaço,
Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…
Entanto, se algum dia, por acaso,
Voltando à minha porta, me chamares,
Talvez, à tarde, ante esse imenso campo raso,
Possa eu ouvir os teus cantares.
Vendo, então, nos meus olhos, qualquer brilho,
Sentindo, em minha voz, tremer um alvoroço,
Vai-te embora feliz, meu irmão e meu filho!
Já te dei tudo quanto posso!"
(José Régio, A Chaga do Lado)
terça-feira, novembro 10, 2009
Da democracia do demo...
Quando oiço o líder parlamentar do PSD, fico com a quase certeza surreal de que foi recrutado no seio do Governo, seja lá ele qual for... Ou então é mesmo um desejo dos sociais-democratas o de chegar ao país inteiro, crianças incluídas... "Mas há muitos especialista que contradizem o que o senhor ministro está a dizer", ou qualquer alarvidade do género, atirou ontem Aguiar Branco, neste caso pronunciando-se acerca do "enriquecimento ilícito". Mas houve outros, tantos, e tão ou mais admiráveis, argumentos de notável calibre, disparados por este senhor. "Sou ou não sou doutor?" Mediocridade no poleiro da oposição, é o que vejo, e quem se lixa é o mexilhão, pois então...
domingo, novembro 08, 2009
...
Até hoje, estive sempre à espera. Agora compreendo, só agora, que nada sabia fazer se não esperar, por ti. Esperar que viesses, esperar que chegasses, e esperar que me ajudasses a tornar a fugir de mim...
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"O mais admirável no fantástico é que o fantástico não existe; tudo é real." (André Breton)

[ Carte Blanche . René Magritte ]
[Oiço Two Dancers, de Wild Beasts. Depois, Logos, de Atlas Sound, e Seek Magic, de Memory Tapes...]

[ Carte Blanche . René Magritte ]
[Oiço Two Dancers, de Wild Beasts. Depois, Logos, de Atlas Sound, e Seek Magic, de Memory Tapes...]
...
"A imaginação disseca o todo da criação de acordo com leis que têm a sua origem no mais fundo das profundezas da alma, e depois junta o organiza os pedaços, criando um novo mundo a partir deles." (Charles Baudelaire)
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"Vamos caminhando aos ziguezagues entre o apocalipse e o paraíso perdido, muito perto do primeiro e muito distantes do segundo; dilacerados entre o anseio e o ódio a nós próprios, perdidos de sonhos e de sonhos perdidos." (Rudolf Schlichter)
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"Fique então com uma pena - disse ela, arrancando uma do leque.
Peguei na pena e, só com o olhar, exprimi-lhe todo o meu fascínio e gratidão. Não estava apenas animado e contente, estava feliz, pairava na bem-aventurança, cheio de bondade, eu não era eu, era uma qualquer criatura não terrestre que desconhecia a maldade e só era capaz de fazer o bem." (Lev Tolstoi, Depois do Baile)
Peguei na pena e, só com o olhar, exprimi-lhe todo o meu fascínio e gratidão. Não estava apenas animado e contente, estava feliz, pairava na bem-aventurança, cheio de bondade, eu não era eu, era uma qualquer criatura não terrestre que desconhecia a maldade e só era capaz de fazer o bem." (Lev Tolstoi, Depois do Baile)
sexta-feira, novembro 06, 2009
quinta-feira, novembro 05, 2009
quarta-feira, novembro 04, 2009
...
Vou deslizando pela Lisboa adormecida, sem pressa de chegar a lugar nenhum. O compasso, que se afirma sereno no íntimo do meu peito, marca o passo vagaroso do meu vadiar. Antevejo um convite para parar, numa hora que o estômago há-de dar...
...
Quem é este
incansável desconhecido
que me leva de vencido,
a mim
frágil parte de um todo
que às vezes se encontra
e outras vezes se perde
nessa parte de ti?

[ De Es Schwertberger: http://www.dees.at ]
[Oiço Through the Devil Softly, o novo de Hope Sandoval & The Warm Inventions...]
incansável desconhecido
que me leva de vencido,
a mim
frágil parte de um todo
que às vezes se encontra
e outras vezes se perde
nessa parte de ti?

[ De Es Schwertberger: http://www.dees.at ]
[Oiço Through the Devil Softly, o novo de Hope Sandoval & The Warm Inventions...]
....
"[...] Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."
(Herberto Helder)
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."
(Herberto Helder)
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"Aturdido pela antevisão do abismo, aterrorizado perante a prova de desintegração mental a que terá que sujeitar-se para realizar o individualismo absoluto, o lírico faz um regresso desvairado ao seu individualismo convencional. No entanto ele nunca mais se libertará da nostalgia dum universo que chegou a pressentir."
(Natália Correia, Poesia de Arte e Realismo Poético)
(Natália Correia, Poesia de Arte e Realismo Poético)
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“A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.” (Sophia de Mello Breyner Andresen)
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"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Os degraus
"Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..."
(Mário Quintana)
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..."
(Mário Quintana)
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