"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda." (Cecilia Meireles)
quinta-feira, maio 12, 2011
quarta-feira, maio 11, 2011
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"O homem é apenas uma luz acesa entre duas sombras. A de um útero e a de uma sepultura." (Albino Forjaz de Sampaio, Mais Além da Morte e do Amor, Guimarães, 1922)
Medo
Ando à volta de tudo isto e,
como quem se despede para sempre,
de costas para o vento e para o amor,
desço em direcção a um cais onde são
inúteis as palavras.
Bebo, fumo, sonho, e conheço bem essa dor
que vem do fundo,
dos vales assombrados onde a amargura
prepara as suas armas.
Não há estrelas, astros, castiçais, nada a
não ser o medo,
nestes climas da alma.
(José Agostinho Baptista)
como quem se despede para sempre,
de costas para o vento e para o amor,
desço em direcção a um cais onde são
inúteis as palavras.
Bebo, fumo, sonho, e conheço bem essa dor
que vem do fundo,
dos vales assombrados onde a amargura
prepara as suas armas.
Não há estrelas, astros, castiçais, nada a
não ser o medo,
nestes climas da alma.
(José Agostinho Baptista)
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Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça)
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
(José Tolentino Mendonça)
Os amigos
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
(José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos)
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
(José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos)
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"Quando chegares ao coração da vida,
não te acharás melhor do que o criminoso
nem pior do que o profeta."
(Kahlil Gibran)
não te acharás melhor do que o criminoso
nem pior do que o profeta."
(Kahlil Gibran)
sexta-feira, maio 06, 2011
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"Eternity isn't some later time. Eternity isn't a long time. Eternity has nothing to do with time. Eternity is that dimension of here and now which thinking and time cuts out. This is it. And if you don't get it here, you won't get it anywhere. And the experience of eternity right here and now is the function of life. There's a wonderful formula that the Buddhists have for the Bodhisattva, the one whose being (sattva) is illumination (bodhi), who realizes his identity with eternity and at the same time his participation in time. And the attitude is not to withdraw from the world when you realize how horrible it is, but to realize that this horror is simply the foreground of a wonder and to come back and participate in it. 'All life is sorrowful' is the first Buddhist saying, and it is. It wouldn't be life if there were not temporality involved which is sorrow. Loss, loss, loss." (Joseph Campbell, The Power of Myth)
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"People say that what we're all seeking is a meaning for life. I don't think that's what we're really seeking. I think what we're seeking is an experience of being alive, so that our life experiences on the purely physical plane will have resonance within our own innermost being and reality, so that we actually feel the rapture of being alive. That's what it's all finally about." (Joseph Campbell, The Power of Myth)
quarta-feira, maio 04, 2011
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"[...] go back to simple food. The Roman legions conquered the world on millet porridge." (The letters of D. H. Lawrence, D. H. Lawrence, carta a Aldous Huxley, 5 de Setembro de 1929)
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"Sorry you are feeling low in spirits. Don't worry, it is very common with men when they pass forty - or when they draw near forty. Men seem to undergo a sort of spiritual change of life, with really painful depression and loss of energy. Even men whose physical health is quite good. Son don't be fret. [...] It's a condition which often drags overal several years. Then, in the end, you come out of it with a new sort of rhythm, a new psychic rhythm: a sort of re-birth. Meanwhile, it is what the mystics call the little death, and you have to put up with it. I have had it too, though not so acutely as some men. But then my health is enough to depress the Archangel Michael himself." (The letters of D. H. Lawrence, D. H. Lawrence, carta a Mark Gertler, 23 Dezembro de 1929)
quarta-feira, abril 27, 2011
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"A veces creo que nada tiene sentido. En un planeta minúsculo, que corre hacia la nada desde millones de años, nacemos en medio de dolores, crecemos, luchamos, nos enfermamos, sufrimos, hacemos sufrir, gritamos, morimos, mueren, y otros están naciendo para volver a empezar la comedia inútil. ¿Sería eso, verdaderamente? ¿Toda nuestra vida sería una serie de gritos anónimos en un desierto de astros indiferentes?" (Ernesto Sabato)
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"Lamentablemente, en estos tiempos en que se ha perdido el valor de la palabra, también el arte se ha prostituido, y la escritura se ha reducido a un acto similar al de imprimir papel moneda."
(Ernesto Sabato, Antes del fin, 1999)
"Me pregunto en qué clase de sociedad vivimos, qué democracia tenemos donde los corruptos viven en la impunidad, y al hambre de los pueblos se la considera subversiva." (ibid.)
(Ernesto Sabato, Antes del fin, 1999)
"Me pregunto en qué clase de sociedad vivimos, qué democracia tenemos donde los corruptos viven en la impunidad, y al hambre de los pueblos se la considera subversiva." (ibid.)
terça-feira, abril 26, 2011
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"Incapaz de receber e transmitir ideias e sentimentos, o cérebro da grande massa da sociedade portuguesa, em virtude daquele impiedoso princípio 'lamarckiano' que condena à morte o órgão que não trabalha, definha-se, atrofia-se, lenhifica-se, e a alma portuguesa estagna na tranquilidade morta das águas paludosas." (Manuel Laranjeira, O Pessimismo Nacional)
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"No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise." (Dante Alighieri)
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"O país está a viver acima dos seus meios. Mais tarde ou mais cedo era inevitável que acabasse em bancarrota." (semanário inglês The Economist, sobre Portugal, a 6 de Fevereiro de 1892)
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PLAYBOY: If life is so purposeless, do you feel that it's worth living?
KUBRICK: Yes, for those of us who manage somehow to cope with our mortality. The very meaninglessness of life forces man to create his own meaning. Children, of course, begin life with an untarnished sense of wonder, a capacity to experience total joy at something as simple as the greenness of a leaf; but as they grow older, the awareness of death and decay begins to impinge on their consciousness and subtly erode their joie de vivre, their Idealism—and their assumption of Immortality. As a child matures, he sees death and pain everywhere about him, and begins to lose faith in the ultimate goodness of man. But if he’s reasonably strong—and lucky—he can emerge from this twilight of the soul into a rebirth of life’s élan. Both because of and in spite of his awareness of the meaninglessness of life, he can forge a fresh sense of purpose and affirmation. He may not recapture the same pure sense of wonder he was born with, but he can shape something far more enduring and sustaining. The most terrifying fact about the universe is not that it is hostile but that it is indifferent; but if we can come to terms with this indifference and accept the challenges of life within the boundaries of death—however mutable man may be able to make them—our existence as a species can have genuine meaning and fulfilment. However vast the darkness, we must supply our own light.
KUBRICK: Yes, for those of us who manage somehow to cope with our mortality. The very meaninglessness of life forces man to create his own meaning. Children, of course, begin life with an untarnished sense of wonder, a capacity to experience total joy at something as simple as the greenness of a leaf; but as they grow older, the awareness of death and decay begins to impinge on their consciousness and subtly erode their joie de vivre, their Idealism—and their assumption of Immortality. As a child matures, he sees death and pain everywhere about him, and begins to lose faith in the ultimate goodness of man. But if he’s reasonably strong—and lucky—he can emerge from this twilight of the soul into a rebirth of life’s élan. Both because of and in spite of his awareness of the meaninglessness of life, he can forge a fresh sense of purpose and affirmation. He may not recapture the same pure sense of wonder he was born with, but he can shape something far more enduring and sustaining. The most terrifying fact about the universe is not that it is hostile but that it is indifferent; but if we can come to terms with this indifference and accept the challenges of life within the boundaries of death—however mutable man may be able to make them—our existence as a species can have genuine meaning and fulfilment. However vast the darkness, we must supply our own light.
quarta-feira, abril 13, 2011
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"Hoje, que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico." (Eça de Queirós, Distrito de Évora)
sexta-feira, abril 08, 2011
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"Escrevo-lhe numa tarde brumosa, triste, duma tristeza lúgubre. E escrevo-lhe, para que você me perdoe o meu silêncio. Demais você sabe que o meu silêncio é o meu tédio, este desolamento de morte, este desânimo, este cansaço prematuro - em face dos homens, das coisas da vida." (Manuel Laranjeira a Amadeu de Souza-Cardoso, em carta de 1905, Cartas)
terça-feira, abril 05, 2011
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"Eles (os incontidos) descobrem lados inexplorados dos sentimentos humanos, põem luz em coisas sensíveis que têm trevas, apesar do tacto carnal." (Barão de Teive, A Educação do Estóico)
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"O meu abandono íntimo de toda a especulação metafísica, a minha náusea moral de toda a sistematização do desconhecido, não procedem, como na maioria dos que concordariam comigo, da incapacidade de especulação. Pensei e sei." (Barão de Teive, A Educação do Estóico, Obras de Fernando Pessoa)
"Qualquer que seja o segredo do mistério das cousas, ele é, por certo, ou muito complexo, ou, se é muito simples, é de uma simplicidade que não temos faculdade que veja. Contra a maioria das doutrinas filosóficas tenho a queixa de que são simples; o facto de quererem explicar é prova bastante de tal, pois explicar é simplificar." (ibid.)
"Qualquer que seja o segredo do mistério das cousas, ele é, por certo, ou muito complexo, ou, se é muito simples, é de uma simplicidade que não temos faculdade que veja. Contra a maioria das doutrinas filosóficas tenho a queixa de que são simples; o facto de quererem explicar é prova bastante de tal, pois explicar é simplificar." (ibid.)
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"O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante, mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se."
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, Obras de Fernando Pessoa)
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, Obras de Fernando Pessoa)
segunda-feira, abril 04, 2011
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"Quando eu ergo a minha fronte para a luz não quero dizer que estou fitando estrelas, esquecido da terra onde poiso os pés; como quando olhos para a terra, cujo ventre me gerou, não quer isso dizer que eu só esteja fitando a lama, esquecido da luz que me vem do alto. É preciso não olhar demasiado para cima, nem demasiado para baixo; é preciso olhar para a frente, para a vida: abranger no mesmo olhar o céu e a terra. Creio que você, meu amigo, está olhando demasiado para cima, com fé demasiada no alto. Acho admirável essa fé... mas... acho-a infecunda também." (Manuel Laranjeira a Teixeira de Pascoaes, em carta de 1904, Cartas)
quarta-feira, março 30, 2011
sexta-feira, março 25, 2011
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"I am sorry to think that you do not get a man's most effective criticism until you provoke him. Severe truth is expressed with some bitterness." (Henry David Thoreau)
segunda-feira, março 21, 2011
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"Comparada com a opinião que temos de nós mesmos, a opinião pública é uma débil tirana. O que um homem pensa de si mesmo, eis o que determina, ou pelo menos indica, o seu destino. Haja auto-emancipação também nas Antilhas da fantasia e da imaginação. Que Wilberforce (1) será capaz de desencadeá-la? Pensai, igualmente, nas senhoras do país que tecem almofadas de toalete até à hora da morte, para não deixarem transparecer um interesse muito vivo pelos seus destinos! Como se se pudesse matar o tempo sem lesar a eternidade." (Henry David Thoureau, Walden; ou a Vida nos Bosques, 1854)
(1) - William Wilberforce (1759-1833), parlamentar inglês que lutou pela libertação dos escravos nas Antilhas Inglesas.
(1) - William Wilberforce (1759-1833), parlamentar inglês que lutou pela libertação dos escravos nas Antilhas Inglesas.
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"Os homens trabalham à sombra de um erro, lançando ao solo para adubo o que têm de melhor. Por uma sina ilusória, vulgarmente chamada necessidade, desgastam-se, como se diz num velho livro, a amontoar tesouros que a traça e a ferrugem estragarão e que os ladrões hão-de roubar. É uma vida de imbecis, como perceberão ao fim dela, se não antes." (Henry David Thoureau, Walden; ou a Vida nos Bosques, 1854)
"Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida." (ibid.)
"Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida." (ibid.)
segunda-feira, março 14, 2011
Das crónicas (anacrónicas) para adormecer...
Já não suporto a indignação de certos cronistas, opinantes contagiados ou "guardiões do regime" face ao sentimento de revolta de uma suposta "geração à rasca" contra o "estado a que isto chegou". É quase caricata a forma como os senhores procuram minar a legitimidade das "jovens" vozes que à rua saíram em protesto, afirmando que não viveram a ditadura, que não fizeram a guerra, etc.. Defendendo, no fundo, que os meninos malcriados e mal-agradecidos fazem parte, na verdade, de uma geração muito privilegiada, que devia era sentir-se grata por aquilo que herdou, acabar de vez com a insolência, baixar a cabeça, e tratar de se fazer à vida...
Diz um, escrevendo de um lugar bem longe do País real... "Tirando o difícil acesso a um mercado de trabalho fechado por razões de conjuntura económica e, se calhar também, de falta de visão empresarial, a actual geração jovem foi privilegiada em muitas coisas relativamente à minha: para começar, não tiveram de viver sufocados por uma ditadura nem ameaçados por uma guerra; não tiveram como única escolha académica universidades públicas de entrada difícil, ensino tipo-militar e cursos restritos e com aplicação prática imediata no mundo do trabalho. Nós não tínhamos o luxo de cursos inúteis nem universidades mixurucas que os pais ou os contribuintes pagavam; não tínhamos Erasmus, nem exames colectivos, nem pós-graduações e doutoramentos para todos; não tínhamos internet nem cinema em casa (só nas salas e só aqueles que a censura permitia) e não fazíamos downloads de tudo; não viajávamos porque não tínhamos dinheiro nem era suposto os jovens viajarem, não tínhamos telemóveis nem roupas de marca, nem Bairro Alto nem nada que fazer a não ser estudar ou ir para a tropa."
Desculpem-me a ingenuidade, mas porque raio a consciência de que a realidade pode ser muito pior do que aquilo que é deve limitar ou matar o desejo de a transformar em algo melhor? Porque carga de água têm os "jovens" de aceitar como imutável uma determinada conjuntura apenas porque uns quantos "velhos" lhes dizem o quão difícil foi conquistá-la? Há toda uma geração para quem a ditadura, a guerra, e tantos outros momentos passados não passam de um imaginário não vivido, de um monte de histórias de outros tempos. Não foi esse o tempo em que cresceram, nem foi esse o lugar que conheceram. Mas atenção: esse passado não é, de todo, irrelevante. Mesmo que sem consciência disso, apenas porque esse passado existiu, estes "jovens" podem hoje olhar um futuro diferente, porventura mais largo, para além desse contexto que já só se vive nas memórias de quem, no seu tempo, foi também capaz de sonhar mais alto. Se os "velhos" têm razão para estar satisfeitos, porque têm, isso deve-se ao facto de terem conseguido, ao que me parece, transmitir a mensagem mais importante de todas: a de que os "jovens" se não podem nunca conformar...
Posto isto, e perante aquilo que é o inequívoco assassínio continuado do futuro de todo um País, das suas gerações de hoje e das vindouras, levado a cabo pela mediocridade dos sucessivos governos, é compreensível que os "velhos", cansados das suas lutas, perversamente comprometidos com o sistema, e com medo do porvir, arrumem as botas e se encostem para uma sesta. Porque podem. Porque devem. Porque os "jovens" de hoje aí estão...
Diz um, escrevendo de um lugar bem longe do País real... "Tirando o difícil acesso a um mercado de trabalho fechado por razões de conjuntura económica e, se calhar também, de falta de visão empresarial, a actual geração jovem foi privilegiada em muitas coisas relativamente à minha: para começar, não tiveram de viver sufocados por uma ditadura nem ameaçados por uma guerra; não tiveram como única escolha académica universidades públicas de entrada difícil, ensino tipo-militar e cursos restritos e com aplicação prática imediata no mundo do trabalho. Nós não tínhamos o luxo de cursos inúteis nem universidades mixurucas que os pais ou os contribuintes pagavam; não tínhamos Erasmus, nem exames colectivos, nem pós-graduações e doutoramentos para todos; não tínhamos internet nem cinema em casa (só nas salas e só aqueles que a censura permitia) e não fazíamos downloads de tudo; não viajávamos porque não tínhamos dinheiro nem era suposto os jovens viajarem, não tínhamos telemóveis nem roupas de marca, nem Bairro Alto nem nada que fazer a não ser estudar ou ir para a tropa."
Desculpem-me a ingenuidade, mas porque raio a consciência de que a realidade pode ser muito pior do que aquilo que é deve limitar ou matar o desejo de a transformar em algo melhor? Porque carga de água têm os "jovens" de aceitar como imutável uma determinada conjuntura apenas porque uns quantos "velhos" lhes dizem o quão difícil foi conquistá-la? Há toda uma geração para quem a ditadura, a guerra, e tantos outros momentos passados não passam de um imaginário não vivido, de um monte de histórias de outros tempos. Não foi esse o tempo em que cresceram, nem foi esse o lugar que conheceram. Mas atenção: esse passado não é, de todo, irrelevante. Mesmo que sem consciência disso, apenas porque esse passado existiu, estes "jovens" podem hoje olhar um futuro diferente, porventura mais largo, para além desse contexto que já só se vive nas memórias de quem, no seu tempo, foi também capaz de sonhar mais alto. Se os "velhos" têm razão para estar satisfeitos, porque têm, isso deve-se ao facto de terem conseguido, ao que me parece, transmitir a mensagem mais importante de todas: a de que os "jovens" se não podem nunca conformar...
Posto isto, e perante aquilo que é o inequívoco assassínio continuado do futuro de todo um País, das suas gerações de hoje e das vindouras, levado a cabo pela mediocridade dos sucessivos governos, é compreensível que os "velhos", cansados das suas lutas, perversamente comprometidos com o sistema, e com medo do porvir, arrumem as botas e se encostem para uma sesta. Porque podem. Porque devem. Porque os "jovens" de hoje aí estão...
A Pátria
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta [...]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [...]
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, – como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;
Dois partidos [...], sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes [...] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar [...]”
(Guerra Junqueiro, A Pátria, 1896)
[Retirado de Arrastão...]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [...]
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, – como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;
Dois partidos [...], sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes [...] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar [...]”
(Guerra Junqueiro, A Pátria, 1896)
[Retirado de Arrastão...]
sábado, março 05, 2011
sexta-feira, março 04, 2011
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“[...] Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
(Alberto Caeiro)
Outras vezes trinco uma torrada de pão alentejano com manteiga,
E acho que só para trincar uma torrada vale a pena ter nascido...
(Eu)
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
(Alberto Caeiro)
Outras vezes trinco uma torrada de pão alentejano com manteiga,
E acho que só para trincar uma torrada vale a pena ter nascido...
(Eu)
quarta-feira, março 02, 2011
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"Tanto na psicologia como na lógica, há verdades mas não há verdade.[...] Querer é suscitar paradoxos." (Albert Camus, O Mito de Sísifo)
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"Um dia vem, no entanto, e o homem constata ou diz que tem trinta anos. Afirma assim a sua juventude. Mas ao mesmo tempo situa-se em relação ao tempo. Toma aí o seu lugar. Reconhece que está num certo momento da curva que confessa ter de percorrer. Pertence ao tempo e reconhece nesse horror que o empolga o seu pior inimigo."
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
terça-feira, março 01, 2011
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"De pernas para o ar. Assim vi o mundo pela primeira vez, e logo ali me pus a chorar." (Manuel Albernoa)
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"Chega sempre uma hora na História em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. [...] E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera este raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não são quatro." (Albert Camus, A Peste)
terça-feira, fevereiro 22, 2011
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"Never doubt that a small group of thoughtful, committed citizens can change the world. Indeed, it is the only thing that ever has."
(Margaret Mead)
[Zeitgeist Moving Forward: parte 1 de 12...]
(Margaret Mead)
[Zeitgeist Moving Forward: parte 1 de 12...]
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Da Servidão Moderna...
"A opressão moderniza-se espalhando por toda a parte as formas de mistificação que permitem ocultar a nossa condição de escravos. Mostrar a realidade tal como ela é verdadeiramente, e não como ela é apresentada pelo poder, constitui a mais genuína subversão. Somente a verdade é revolucionária."
[Imperdível: Da Servidão Moderna...]
[Imperdível: Da Servidão Moderna...]
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
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"- Papá, estás triste?
- Não estou triste, Catherine, estou apenas só."
(Albert Camus, Albert Camus - Solitaire e Solidaire)
- Não estou triste, Catherine, estou apenas só."
(Albert Camus, Albert Camus - Solitaire e Solidaire)
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"Quando morava em Argel, suportava o Inverno pois sabia que numa noite, numa certa noite pura e fria de Inverno, as amendoeiras do vale dos Cônsules se cobririram de flores." (Albert Camus, O Verão)
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
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"Os homens que sofrem verdadeiramente de ciúme, a pressa que têm é de deitar-se com aquela que, no entanto, julgam que os traiu. Com certeza, querem assegurar-se, uma vez mais, de que o seu querido tesouro lhes pertence ainda. Querem possuí-lo, como se diz. Mas é também porque, logo a seguir, ficam menos ciumentos. O ciúme físico é um efeito da imaginação ao mesmo tempo que um juízo que formulamos sobre nós mesmos. Atribuímos ao rival os vis pensamentos que tivemos nas mesmas circunstâncias." (Albert Camus, A Queda)
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"Desesperado do amor e da castidade, lembrei-me, enfim, de que restava o deboche, que substitui muito bem o amor, faz calar os risos, restabelece o silêncio e, sobretudo, confere a imortalidade. [...] Visto que eu desejava a vida eterna, dormia, pois, com p... e bebia durante noites a fio. De manhã, é certo, tinha na boca o travo da condição mortal. Mas, durante longas horas, eu tinha pairado, feliz." (Albert Camus, A Queda)
"O álcool e as mulheres forneceram-me, devo confessá-lo, o único alívio de que era digno. [...] Verá então que o verdadeiro deboche é libertador porque não cria nenhuma obrigação. No deboche, só nos possuímos a nós mesmos; ele fica sendo, pois, a ocupação preferida dos grandes apaixonados da sua pessoa. É uma selva, sem futuro nem passado, sem promessa sobretudo, nem sanção imediata. Os lugares onde se exerce estão isolados do mundo. Deixa-se, ao lá entrar, tanto o medo como a esperança." (idib.)
"O álcool e as mulheres forneceram-me, devo confessá-lo, o único alívio de que era digno. [...] Verá então que o verdadeiro deboche é libertador porque não cria nenhuma obrigação. No deboche, só nos possuímos a nós mesmos; ele fica sendo, pois, a ocupação preferida dos grandes apaixonados da sua pessoa. É uma selva, sem futuro nem passado, sem promessa sobretudo, nem sanção imediata. Os lugares onde se exerce estão isolados do mundo. Deixa-se, ao lá entrar, tanto o medo como a esperança." (idib.)
quarta-feira, fevereiro 09, 2011
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"Mantinha todas as minhas afeições à minha volta para as utilizar quando quisesse. Não podia, pois, viver, confesso, senão com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a responder ao meu chamamento, fosse em que momento fosse, votados, enfim, à esterilidade, até ao dia em que me dignasse favorecê-los com a minha luz." (Albert Camus, A Queda)
terça-feira, fevereiro 08, 2011
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"Só o 'herói' conseguirá chegar a dominar a Energia Divina usando ritualmente os cinco M (Pancamakara): (Madya, vinho; Mâmsa, carne; Matsya, veneno; Mudrâ, gestos; e, cúpula destas práticas, o Maithuna, contacto carnal)." (Kulârnava, obra tântrica)
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
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"Quando se meditou muito sobre o homem, por ofício ou vocação, acontece-nos sentirmos nostalgia dos primatas."
(Albert Camus, A Queda)
(Albert Camus, A Queda)
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
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"Quantas vezes esta maldita divisão da minhas consciência não foi culpada de atrozes acontecimentos. Enquanto uma parte de mim me leva a tomar uma atitude grandiosa, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia e a falsa generosidade. Enquanto uma me conduz a insultar o ser humano, a outra condói-se dele e acusa-me do que denuncio nos outros. Enquanto uma me faz ver a beleza do mundo, a outra aponta-me a sua fealdade e o ridículo de todo o sentimento de felicidade." (Ernesto Sabato, O Túnel)
terça-feira, fevereiro 01, 2011
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Da curiosa semelhança entre um telefone esquecido no silêncio, e um corpo abandonado na ausência: de ambos esperarem o toque...
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"[...] Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti."
(Alexandre O'Neill, Um Adeus Português)
"Digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti, murmurou o médico para a ficha que o pagador lhe levava. [...]
(António Lobo Antunes, Memória de Elefante)
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti."
(Alexandre O'Neill, Um Adeus Português)
"Digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti, murmurou o médico para a ficha que o pagador lhe levava. [...]
(António Lobo Antunes, Memória de Elefante)
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"Aqui, pensou o médico, desagua a miséria, a solidão absoluta, o que em nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma 'normalidade' que provavelmente consiste apenas no empalhar a vida." (António Logo Antunes, Memória de Elefante)
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"Quit putting a goddamn dollar sign on every fucking thing on this planet!" (Bill Hicks)
[Absolutamente genial: The Yes Men Fix The World...]
[Absolutamente genial: The Yes Men Fix The World...]
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"Enquanto existirem matadouros, existirão campos de batalha."
(Leo Tolstoi)
"Auschwitz begins wherever someone looks at a slaughterhouse and thinks: they’re only animals."
(Theodor Adorno)
[Extremamente violento: Earthlings...]
(Leo Tolstoi)
"Auschwitz begins wherever someone looks at a slaughterhouse and thinks: they’re only animals."
(Theodor Adorno)
[Extremamente violento: Earthlings...]
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"A imagem da mulher à espera dele entre as mangueiras de Marimba pejadas de morcegos aguardando o crepúsculo apareceu-lhe numa guinada de saudade violentamente física como uma víscera que explode. Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio." (António Lobo Antunes, Memória de Elefante)
terça-feira, janeiro 25, 2011
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Todas as pessoas têm direito à liberdade, assim o consagra a Declaração Universal dos Direitos do Homem... Todas, todas, pai? Quase todas. Os vagabundos, por exemplo, de acordo com a Convenção Europeia dos Direitos do Homem... Os vagabundos o quê, pai? Podem ser presos... O que é um vagabundo, pai? São perigosos? Depois explico-te, anda, vamos, ajuda-me a procurar um sítio resguardado onde possamos dormir esta noite...
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Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 5º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem:
1 - Toda a pessoa tem direito a liberdade e segurança. Ninguém pode ser privado da sua liberdade, salvo nos casos seguintes e de acordo com o procedimento legal: [...] e) Se se tratar da detenção legal de uma pessoa susceptível de propagar uma doença contagiosa, de um alienado mental, de um alcoólico, de um toxicómano ou de um vagabundo.
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Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 5º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem:
1 - Toda a pessoa tem direito a liberdade e segurança. Ninguém pode ser privado da sua liberdade, salvo nos casos seguintes e de acordo com o procedimento legal: [...] e) Se se tratar da detenção legal de uma pessoa susceptível de propagar uma doença contagiosa, de um alienado mental, de um alcoólico, de um toxicómano ou de um vagabundo.
terça-feira, janeiro 18, 2011
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"Le salaud est celui qui, pour justifier son existence, feint d’ignorer la liberté et la contingence qui le caractérisent essentiellement en tant qu’homme." (Sartre, La Nausée)
[Salaud: nome violentamente injurioso, aplicado por Sartre aos indivíduos que, segundo ele, pretendem escapar à angústia de serem totalmente livres, adoptando uma atitude mentirosa em relação a outrem e a si próprios. (Nota do tradutor em A Náusea)]
[Salaud: nome violentamente injurioso, aplicado por Sartre aos indivíduos que, segundo ele, pretendem escapar à angústia de serem totalmente livres, adoptando uma atitude mentirosa em relação a outrem e a si próprios. (Nota do tradutor em A Náusea)]
sábado, janeiro 15, 2011
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"Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda." (O Gigolô das palavras)
[Luís Fernando Veríssimo]
[Luís Fernando Veríssimo]
segunda-feira, janeiro 03, 2011
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"I am an old man and have known a great many troubles, but most of them never happened." (Mark Twain)
quarta-feira, dezembro 29, 2010
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"Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que estava sozinho." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)
quarta-feira, dezembro 22, 2010
sexta-feira, dezembro 17, 2010
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"O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo." (Vergílio Ferreira, Pensar)
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"Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima." (Vergílio Ferreira, Pensar)
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"Não penses que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora." (Vergílio Ferreira)
quinta-feira, dezembro 16, 2010
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"Há os livros que antes de lidos já estão lidos. Há os que se lêem todos e ficam logo lidos todos. E há os que nos regateiam a leitura e que pedimos humildemente que se deixem ler todos e não deixam e vão largando uma parte de si pelas gerações e jamais se deixam ler de uma vez para sempre." (Vergílio Ferreira, Escrever)
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"Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha." (Vergílio Ferreira, Escrever)
quarta-feira, dezembro 15, 2010
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"Exige-se, para o perfeito amor, que o amado ame o amante; que este ame, em si próprio, o amante que ama o amado e que o amado ama, o mesmo tendo de haver no correspondente. Que os amantes amem nos amados os amantes que a eles os amam. Ou, mais simples: que o amor se ame." (Agostinho da Silva)
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"Todo o homem é diferente de mim e único no Universo; não sou eu, por conseguinte, quem tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de ajudar a ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros." (Agostinho da Silva)
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"Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama." (Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo)
terça-feira, dezembro 14, 2010
Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
(Ferreira Gullar)
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
(Ferreira Gullar)
segunda-feira, dezembro 13, 2010
O que se foi
O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então por que me faz
o coração bater tão forte?
(Ferreira Gullar)
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então por que me faz
o coração bater tão forte?
(Ferreira Gullar)
domingo, dezembro 12, 2010
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"A verdade permanece sepultada sob as máximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver à arte de viver com baixeza. Não se põe diferença entre conhecer o mundo e enganá-lo." (Montesquieu)
sexta-feira, dezembro 10, 2010
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"I once had a sparrow alight upon my shoulder for a moment, while I was hoeing in a village garden, and I felt that I was more distinguished by that circumstance that I should have been by any epaulet I could have worn." (Henry David Thoreau)
terça-feira, dezembro 07, 2010
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"Tu és jovem e anseias por casamento e filhos. Mas pergunto, és homem que ouses desejar um filho? És acaso um vitorioso; um dominador de ti próprio, um comandante dos sentidos, um senhor das tuas virtudes? - Ou no teu desejo só fala o animal, a necessidade? Ou a solidão? Ou a discórdia contigo mesmo? Eu quero que a tua vitória e liberdade desejem um filho. Construirás um monumento vivo sobre a tua vitória e liberdade. Construirás para além de ti mesmo. Mas, primeiro, tens de construir-te sólido de alma e corpo. Não apenas propagar, mas propagar-se para cima! Casamento: assim eu chamo à vontade de dois para criar um que seja mais que aqueles que o geraram." (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratrusta)
segunda-feira, dezembro 06, 2010
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"Antes conservava-me muito perto das pessoas, à superfície da solidão, bem decidido, em caso de alarme, a refugiar-me no meio delas." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)
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"Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raras vezes penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso, e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Crazy & Saints
I choose my friends not by their skin or other archetype, but by the pupil.
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I'm not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I'll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don't want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they daunt doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don't just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn't laugh together doesn't know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don't want foreseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don't want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don't forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they're never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that 'normalcy' is a sterile and imbecile illusion.
(Oscar Wilde)
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I'm not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I'll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don't want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they daunt doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don't just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn't laugh together doesn't know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don't want foreseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don't want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don't forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they're never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that 'normalcy' is a sterile and imbecile illusion.
(Oscar Wilde)
terça-feira, novembro 30, 2010
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"As pessoas tomam toda esta comédia por qualquer coisa de muito sério, mesmo as que são dotadas de um intelecto a toda a prova. É nisso que reside a tragédia delas. E sofrem, é claro, mas... em compensação, vivem, vivem realmente e não ilusoriamente, porque a vida é isso mesmo: sofrimento. Sem sofrimento, que graça teria a vida? Tudo se transformaria num infinito Te Deum: isso é coisa santa, mas um pouco enfadonha. (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)
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"Nos sonhos, e especialmente nos pesadelos, causados por, digamos, desarranjos estomacais, ou por qualquer outra coisa, o homem por vezes vê coisas tão artísticas, vê uma realidade tão complexa e verosímil, acontecimentos, ou mesmo séries completas de acontecimentos com um enredo a ligá-los e com pormenores tão inesperados, desde as vossas manifestações mais sublimes até ao mero botão de punho, que nem o próprio Lev Tolstói, juro-te, seria capaz de inventar."
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)
sexta-feira, novembro 26, 2010
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Passo a vida a sonhar outros mundos, e, por vezes, sonho mundos em que me encontro a sonhar este...
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"Congrego os fantasmas dos velhos piratas em torno do silêncio... Solto as amarras da eterna solidão, firmo as mãos calejadas no leme, sem prender, e derramo na imensidão do horizonte as mais íntimas perplexidades. Acordo a manhã funda com um grito: "Mar à vista! Mar à vista!" Sou dono do porvir, mestre dos ventos e senhor das tempestades..."
(Manuel Albernoa)
(Manuel Albernoa)
sexta-feira, novembro 19, 2010
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"Não basta possuí-la. Quero que ela se me abandone."
(Pierre-Ambrose Choderlos de Laclos, As ligações perigosas)
(Pierre-Ambrose Choderlos de Laclos, As ligações perigosas)
quinta-feira, novembro 18, 2010
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"Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significado: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo." (Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante)
quarta-feira, novembro 17, 2010
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"Na concreção que se formava, a ansiedade tornava-se mais febril, mais exigente, mais confiada de si mesma, e era como se eu, não sabendo de mim, não desejando nada, não pensando em nada, nunca me tivesse sentido tão duramente lúcido." (Jorge de Sena, Sinais de Fogo)
terça-feira, novembro 09, 2010
segunda-feira, novembro 08, 2010
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"Em geral não se imagina Platão e Aristóteles senão com grandes togas e como personagens sempre sérias e graves. Eram pessoas cortezes, que se riam como os outros e com os seus amigos: e quando fizeram as suas leis e os seus tratados de política foi a brincar e para se divertirem. Era a parte menos filosófica e menos séria da sua vida. A mais filosófica era viver simples e tranquilamente." (Pascal, em Livro dos Amigos, de Hugo Von Hofmannsthal)
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"Se o meu tempo me contesta,
Sereno o hei-de aceitar,
Que eu doutros tempos já venho
E espero a outros chegar."
(Franz Grillparzer)
Sereno o hei-de aceitar,
Que eu doutros tempos já venho
E espero a outros chegar."
(Franz Grillparzer)
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"O poeta nunca está inteiramente absorto nos seus pensamentos. O técnico está sempre." (Addison)
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"No carácter de cada pessoa há qualquer coisa que não se pode quebrar - a ossatura do carácter; e querer mudar isto significa sempre ensinar uma ovelha a ir buscar caça." (Lichtenberg, em Livro dos Amigos, de Hugo Von Hofmannsthal)
quinta-feira, novembro 04, 2010
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"Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso, muito nosso e apenas isso, mas repito: se, em comparação com muita gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo (-me) e não sou capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerscência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? Porque desconfio, duvido, amontoando hipóteses, alterando dados na aparência irrefutáveis e, em frieza quase absoluta, distinguindo os meus sentimentos ternos pelas pessoas da análise implacável do que elas são ou de como as queria? e repelindo-as ou chegando-me a elas, na convivência forçada ou fascinante que temos de aceitar com o Outro?
Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo?
Ou fui sempre"
(Luiz Pacheco, Uma Admirável Droga)
Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo?
Ou fui sempre"
(Luiz Pacheco, Uma Admirável Droga)
segunda-feira, outubro 25, 2010
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"Conheço uma certa emoção das horas, sei da aparição dos instantes-limite, das vozes submersas, e gostava de dar aos outros essa notícia. Há uma vida atrás da vida, uma irrealidade presente à realidade, mundo das formas de névoa, mundo incoercível e fugidio, mundo da surpresa e do aviso. Assim o próprio presente pode ter a voz do passado, vibrar como ele à obscuridade de nós. A minha retórica vem do desejo de prender o que me foge, de contar aos outros o que ainda não tem nome e onde as palavras se dissipam com a névoa do que narram." (Vergílio Ferreira, Aparição)
quarta-feira, outubro 20, 2010
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"Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV)
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