"A vida é um soco no estômago."
(Clarice Lispector, A Hora da Estrela)
quinta-feira, dezembro 26, 2013
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"Só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
(Clarice Lispector, A Hora da Estrela)
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
(Clarice Lispector, A Hora da Estrela)
domingo, dezembro 22, 2013
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No lar Nossa Senhora da Luz, na aldeia alentejana de Albernoa, lamentam-se as vidas que o mar chamou a si. Um dos náufragos era filho da terra, e diz quem o conheceu que "sempre foi muito amigo de ir ao peixe."
sábado, dezembro 21, 2013
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"Quando o grande senhor passa, o camponês sábio faz uma grande vénia e solta um peido silencioso." (Provérbio Etíope)
quarta-feira, dezembro 11, 2013
segunda-feira, novembro 11, 2013
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"Uma filosofia consoladora concordante com a religião pretende que a dependência em que a alma está dos sentidos e dos órgãos é apenas fortuita e passageira, e que ela será livre e feliz quando a morte do corpo a tiver libertado desses poderes tirânicos. É muito belo, mas, religião à parte, não é seguro. Portanto, como não posso ter a certeza perfeita de ser imortal a não ser depois de ter deixado de viver, hão-de perdoar-me se não tenho pressa de conseguir conhecer tal verdade."
(Giacomo Casanova, História da Minha Vida)
(Giacomo Casanova, História da Minha Vida)
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"Se bem que o homem seja livre, não se deve contudo julgar que é senhor de fazer tudo o que quer. Torna-se escravo logo que se determina a agir quando é agitado por uma paixão. [...] Aquele que tem a força de suspender os seus actos até que chegue a calma, esse é o sábio. É um ser raro."
(Giacomo Casanova, História da Minha Vida)
(Giacomo Casanova, História da Minha Vida)
domingo, novembro 10, 2013
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"[...] queria conhecê-la, retê-la ao menos um momento, saber como, quem era, olhou ainda à volta, desistiu em seguida e com fúria insofrida começou a subir a avenida, por todo o lado luzes lojas anúncios, beba cerveja, visite as vistas, vista as visitas, emagreça, coma, veja, Yvette é diferente de Irene mas ambas preferem modess, compre gess kleenex reglex mex, ponha o tampão, tampe o porão, afague o grelo para que cresça, aplique a pica na pombinha, afogue o fogo enquanto é novo, esfole o fole enquanto é jovem, amole a mola enquanto pode, use a caneta se lhe dá na veneta, meta o grego na greta, molhe a marreta na vala estreita, vergue a vara na valeta, vá ao veio e volte cedo, esprema o mamão no matacão, um bom colchão dá tesão, olhe em todas a direções cuidado com os aviões, ordens conselhos sugestões, publicidade até à náusea, entrou num bar, bebeu um bagaço que lhe soube a escarro, saiu pior que entrara, estômago e boca numa brasa, pensamentos perplexos perturbavam-lhe o cérebro baralhado por incongruentes factos gestos frases e um remorso vago [...]"
(Almeida Faria, Rumor Branco)
(Almeida Faria, Rumor Branco)
quarta-feira, novembro 06, 2013
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"Conta uma velha piada da República Democrática Alemã que um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que toda a sua correspondência será lida pelos censores, ele diz aos amigos: «Vamos combinar um código: se receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa.» Passado um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita a azul: «Tudo é uma maravilha por aqui: as lojas estão abastecidas, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance — a única coisa que não temos é tinta vermelha.» Esta situação não é a mesma que vivemos hoje? Temos toda a liberdade que desejamos, a única coisa que nos falta é a «tinta vermelha»: «sentimo-nos livres» porque nos falta a linguagem para articular a nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual — «guerra ao terrorismo», «democracia e liberdade», «direitos humanos», etc., etc. — são termos falsos, que mistificam a nossa perceção da situação, em vez de permitirem que pensemos nela."
(Slavoj Žižek, O Ano em que Sonhámos Perigosamente)
(Slavoj Žižek, O Ano em que Sonhámos Perigosamente)
segunda-feira, novembro 04, 2013
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"[...] The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity."
(William Butler Yeats, The Second Coming)
Are full of passionate intensity."
(William Butler Yeats, The Second Coming)
sexta-feira, novembro 01, 2013
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Nunca li nada de Valter Hugo Mãe (sim, com maiúsculas!). Tenho em casa O Remorso de Baltazar Serapião, o tal suposto "tsunami literário" com que venceu o prémio Saramago. Ontem, li a entrevista que deu à Ler do mês passado: as suas respostas são de tal forma banais e superficiais - e a momentos tão absurdas ou narcísicas - que duvido que alguma vez venha a pegar no romance...
Deixo um pequeno excerto:
"Continua com vontade de ter um filho?
Continuo. A minha vida não está preparada para um filho, ainda não sei tomar conta de mim. Acho que a solteirice aguda me cria muito medo, muito respeito, não tenho uma casa preparada para crianças, tudo na minha casa magoa, tudo se parte, tudo é tão delicadozinho, parece um museu de tralhas afetivas. Uma criança chegava ali e partia-me tudo. Se tivesse um filho tinha de preparar a casa, arrumar os 'biscuits' para um uso mais pragmático. A minha casa não serve muito para viver, é assim uma coisa de passeio.
Mas é uma dimensão que queria ter?
É. Tenho uma amiga que me anda a puxar para ir a um orfanato onde há crianças de sete, oito, nove anos, as que têm mais dificuldade em serem adotadas.Talvez uma criança com essa idade me seja mais fácil receber, e ao mesmo tempo também é uma aventura muito incrível, acolher-se uma pessoa que talvez já não tenha esperança nenhuma de ter um vínculo familiar profundo, e dizer-lhe que ela também tem direito a tudo. O meu quarto de hóspedes talvez venha a ser o quarto de uma menina. As meninas são mais misteriosas e têm mais que se lhe diga, são mais interessantes. Jogam menos cartas e conversam mais."
Deixo um pequeno excerto:
"Continua com vontade de ter um filho?
Continuo. A minha vida não está preparada para um filho, ainda não sei tomar conta de mim. Acho que a solteirice aguda me cria muito medo, muito respeito, não tenho uma casa preparada para crianças, tudo na minha casa magoa, tudo se parte, tudo é tão delicadozinho, parece um museu de tralhas afetivas. Uma criança chegava ali e partia-me tudo. Se tivesse um filho tinha de preparar a casa, arrumar os 'biscuits' para um uso mais pragmático. A minha casa não serve muito para viver, é assim uma coisa de passeio.
Mas é uma dimensão que queria ter?
É. Tenho uma amiga que me anda a puxar para ir a um orfanato onde há crianças de sete, oito, nove anos, as que têm mais dificuldade em serem adotadas.Talvez uma criança com essa idade me seja mais fácil receber, e ao mesmo tempo também é uma aventura muito incrível, acolher-se uma pessoa que talvez já não tenha esperança nenhuma de ter um vínculo familiar profundo, e dizer-lhe que ela também tem direito a tudo. O meu quarto de hóspedes talvez venha a ser o quarto de uma menina. As meninas são mais misteriosas e têm mais que se lhe diga, são mais interessantes. Jogam menos cartas e conversam mais."
quarta-feira, outubro 30, 2013
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"Temos dificuldade em compreender nos outros aquilo que não somos capazes de viver."
(António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã)
(António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã)
sexta-feira, outubro 25, 2013
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"The clear awareness of having been born into a losing struggle need not lead one into despair. I do not especially like the idea that one day I shall be tapped on the shoulder and informed, not that the party is over but that it is most assuredly going on - only henceforth in my absence. (It's the second of those thoughts: the edition of the newspaper that will come out on the day after I have gone, that is the more distressing.) Much more horrible, though, would be the announcement that the party was continuing forever, and that I was forbidden to leave. Whether it was a hellishly bad party or a party that was perfectly heavenly in every respect, the moment that it became eternal and compulsory would be the precise moment that it began to pall."
(Christopher Hitchens, Hitch-22: A Memoir)
(Christopher Hitchens, Hitch-22: A Memoir)
quinta-feira, outubro 24, 2013
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"We're all going to die, all of us, what a circus! That alone should make us love each other but it doesn't. We are terrorized and flattened by trivialities, we are eaten up by nothing."
(Charles Bukowski)
(Charles Bukowski)
quarta-feira, outubro 23, 2013
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"Geralmente as mulheres gostam de jardineiros. A sua intimidade com a natureza, os seus conhecimentos um pouco misteriosos semeados de palavras latinas, o seu respeito pelo tempo, pelas estações e pelas lentidões necessárias, a sua preocupação com o prazer: tudo isto seduz. Sem esquecer alguns atributos físicos que atordoam algumas, como as mãos largas com calos, as feições vincadas pelo ar puro, os cheiros penetrantes que produzem, a mistura de suor e terra ao fim de um árduo dia de trabalho... Sem esquecer também que um cenário propício a abraços inéditos, como um recinto de sebes ou por trás das treliças, traz mais ideias novas do que as paredes do quarto conjugal. Em todas as épocas, foram muitas as que cederam aos encantos desta corporação."
(Érik Orsenna, O Jardineiro do Rei-Sol)
(Érik Orsenna, O Jardineiro do Rei-Sol)
terça-feira, outubro 22, 2013
sexta-feira, outubro 18, 2013
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"Quando a Natália [Correia] e a irmã desciam a Morais Soares, as árvores afastavam-se para elas passarem."
(Manuel da Fonseca)
(Manuel da Fonseca)
O Girassol de Rio de Onor
Existe juro um girassol em rio de onor
mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for
Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor
à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nuñez
(Amigos que passais em direcção a córdova ou aos cobres de lucena
dai-me notícias desse girassol menos brilhante sol
mas bem mais acessível pelo menos para nós que não temos raízes
mas pomos o que temos sobre a terra)
Reconheci-o logo embora há muitos anos o não visse
além de o conhecer sabia ser ele natural de rio de onor
e lá habitualmente residente
É ele raios o partam disse idênticas as pétalas igual a cor
é ele ó céus é ele sem tirar nem pôr
o meu amigo girassol de rio de onor
(é fácil ter na flor um verdadeiro amigo
se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis)
Era mesmo era ele sem tirar nem pôr
o girassol de rio de onor há tantos anos visto
Mas nós os que lá fomos e por lá passámos
nós é que já não somos quem lá fomos
e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos
que tu ó meu amigo com as tuas
duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio
pequena ponte e diminuto rio
a dois passos dos olhos tão redondos que solares
dessas duas ou três quatro no máximo crianças
(meu deus essas crianças onde é hoje o seu país?)
Viajo pela espanha mas é este julgo juro o girassol
pois embora não esteja em portugal
não há ainda julgo plantas nacionais
e além disso aquela terra é meio espanhola
Mas nós que assim passamos pelos campos pelos dias
nós que não temos nem nunca tivemos
coisa pequena como uns palmos de país
pomos tudo o que somos nestes seres que passamos
e nos fixamos só em certas fotografias que tiramos
Era aquele julgo juro o girassol de há anos
mas nós que como sombras por aqui passamos
porventura seremos os que éramos há anos?
Qual é ao certo o nosso verdadeiro país?
Lanço a pergunta aos verdes campos outonais da andaluzia
mas esta paisagem que tanto me diz
quem sou isso é que ela nem ninguém mo diz
(Ruy Belo)
mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for
Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor
à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nuñez
(Amigos que passais em direcção a córdova ou aos cobres de lucena
dai-me notícias desse girassol menos brilhante sol
mas bem mais acessível pelo menos para nós que não temos raízes
mas pomos o que temos sobre a terra)
Reconheci-o logo embora há muitos anos o não visse
além de o conhecer sabia ser ele natural de rio de onor
e lá habitualmente residente
É ele raios o partam disse idênticas as pétalas igual a cor
é ele ó céus é ele sem tirar nem pôr
o meu amigo girassol de rio de onor
(é fácil ter na flor um verdadeiro amigo
se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis)
Era mesmo era ele sem tirar nem pôr
o girassol de rio de onor há tantos anos visto
Mas nós os que lá fomos e por lá passámos
nós é que já não somos quem lá fomos
e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos
que tu ó meu amigo com as tuas
duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio
pequena ponte e diminuto rio
a dois passos dos olhos tão redondos que solares
dessas duas ou três quatro no máximo crianças
(meu deus essas crianças onde é hoje o seu país?)
Viajo pela espanha mas é este julgo juro o girassol
pois embora não esteja em portugal
não há ainda julgo plantas nacionais
e além disso aquela terra é meio espanhola
Mas nós que assim passamos pelos campos pelos dias
nós que não temos nem nunca tivemos
coisa pequena como uns palmos de país
pomos tudo o que somos nestes seres que passamos
e nos fixamos só em certas fotografias que tiramos
Era aquele julgo juro o girassol de há anos
mas nós que como sombras por aqui passamos
porventura seremos os que éramos há anos?
Qual é ao certo o nosso verdadeiro país?
Lanço a pergunta aos verdes campos outonais da andaluzia
mas esta paisagem que tanto me diz
quem sou isso é que ela nem ninguém mo diz
(Ruy Belo)
segunda-feira, outubro 14, 2013
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"Sim, é tempo de assentar, de crescer. Na verdade, nem há escolha: não assentar e não crescer está a dar cabo de mim. Tenho de desistir disso, de ser novo, antes que seja tarde demais."
(Martin Amis, Dinheiro)
(Martin Amis, Dinheiro)
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