sexta-feira, fevereiro 20, 2015

...

Manhã cedo, entre sonhos: abro os olhos e vejo, aos pés do meu beliche, um tipo sentado no chão, pernas cruzadas, costas direitas, aparentando meditar...

A cena passou-se há mais de 15 anos, numa pousada da juventude em Itália, julgo que em Florença, mas disso já não estou certo...

Segurei a custo as sobrancelhas até que terminasse o ritual, simulei uma vitalidade inexistente, e perguntei-lhe o que havia estado a fazer sentado no chão àquela hora - e sobretudo porquê...

Recordo o sorriso que me devolveu... Levantar-se cedo para meditar - explicou-me benevolentemente, já não sei em que idioma - ajudava-o a resolver os seus problemas, e a encontrar o equilíbrio. Encenou uma pequena vénia, desejou-me um bom dia, e partiu resolvido...

Permaneci deitado na obscuridade, língua encortiçada pela noite de excessos, mastigando a inquietação decorrente da proposta que me havia sido apresentada. Felizmente, e apesar da escassez conjuntural de sinapses, não demorei muito a concluir que o processo não poderia nunca ser aplicado à minha pessoa. Ora, se me levantasse cedo para meditar e resolver os meus problemas, deixaria de ser preciso meditar, já que o meu principal problema era, à época, a incapacidade de me levantar cedo. E se deixasse de ser preciso meditar, porque me haveria de levantar cedo?...

Apaziguado pela impossibilidade lógica de enveredar por esse penoso caminho da disciplina matinal, recordo-me por último de ter ajeitado a almofada antes de regressar à procura paciente do meu equilíbrio, mas na horizontal...

...

"I don't work with inspiration. Inspiration is for amateurs. I just get to work."

(Chuck Close)

...

[...] I wish this paper would go on forever and never run out and I could just keep talking to you. Just know I’m with you. Every stream, every lake, every field and river. In the woods and in the hills, in all the places you showed me. I love you."

(Peter Kassig)

...

“In the course of my work with the most violent men in maximum-security settings, not a day goes by that I do not hear reports – often confirmed by independent sources – of how these men were victimized during childhood. Physical violence, neglect, abandonment, rejection, sexual exploitation and violation occurred on a scale so extreme, so bizarre, and so frequent that one cannot fail to see that the men who occupy the extreme end of the continuum of violent behavior in adulthood occupied an equally extreme end of the continuum of violent child abuse earlier in life.”

(James Gilligan, M.D., Violence, 1996, Random House / Vintage Books, p. 45)

...

"Zen question: If a man speaks in a forest but no woman hears him, is he still wrong?"

(Maura O'Connell)

...

"Antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.»"

(António Lobo Antunes em entrevista à edição de Dezembro de 2014 da revista Ler)

...

"Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia —
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia. [...]"

(Pois claro, Fernando...)

...

"In the head of the interrogated prisoner, a haze begins to form. His spirit is wearied to death, his legs are unsteady, and he has one sole desire: to sleep... Anyone who has experienced this desire knows that not even hunger and thirst are comparable with it."

(Menachem Begin, White nights: the story of a prisoner in Russia)

...

"He seems altogether exempt from the ambition of making a book, and conveys his information briefly and plainly, with the air of a man who writes, not because he wants to say something, but because he has something to say." (The London Quarterly Review, Volume 23)

...

Hoje foi um dia bom: não escrevi nenhum poema mau...

terça-feira, dezembro 02, 2014

...

Quando, à beira da impensável voragem do real, sobrevém a vertigem, o homem agarrar-se ao consolo das suas fantasias...

...

"Remind yourself that you love a mortal, something not your own; it has been given to you for the present, not inseparably nor forever, but like a fig, or a bunch of grapes, at a fixed season of the year, and that if you yearn for it in the winter, you are a fool."

(Epictetus, Discourses)

sexta-feira, novembro 28, 2014

...

Estava a palavra classe a descansar em plano inclinado, quando o c escorregou: dasse!

quarta-feira, novembro 26, 2014

...

"Sem as pequeninas hipocrisias mútuas, tornar-nos-íamos intoleráveis uns para os outros."

(Emanuel Wertheimer)

sábado, novembro 22, 2014

...

"There are lots of ways of being miserable, but there’s only one way of being comfortable, and that is to stop running round after happiness. If you make up your mind not to be happy there’s no reason why you shouldn’t have a fairly good time."

(Edith Wharton, Ethan Frome and Other Short Fiction)

quarta-feira, novembro 19, 2014

...

"O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê."

(Umberto Eco)

sábado, novembro 15, 2014

...

"[...] Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este."

(Manuel António Pina)

quinta-feira, novembro 06, 2014

OS GATOS NÃO TÊM VERTIGENS

MAS QUANDO ARRANHAM DÓI COMO O CAR$%&#

Caro António-Pedro Vasconcelos,

"São as circunstâncias que governam os homens, e não os homens que governam as circunstâncias”, terá escrito Heródoto. Pois bem: foram então as circunstâncias que determinaram que este homem, que aqui se lhe dirige, se tenha sentado numa sala de cinema para assistir ao seu mais recente filme (se assim o posso designar).

"Os gatos não têm vertigens” é uma interminável sequência de lugares-comuns, fabricada com a aparente e quiçá meritória preocupação de que o espectador nunca se distraia e nunca se perca no caminho de uns para os outros, cuidando que o mesmo nunca seja confrontado com nada, praticamente nada, que o possa levar a envolver-se em actividades indesejáveis e desnecessárias como pensar. Levado ao extremo, é assim como se o meu caro quisesse, depois de nos apresentar uma estrada plana, sem curvas, ausente de perigos e surpresas, propor-nos ainda: “venham comigo por aqui, e não se preocupem, que eu levo-vos ao colo”.

Pois, comigo, devo dizer-lhe que não resultou, e posso explicar-lhe porquê…

Ao longo do seu filme, e como deve imaginar, fui sendo consecutivamente agredido por “clichês” grosseiros e corpulentos, que me foram violentamente empurrando para fora da história (e eu tentava permanecer, eu tentava...). A determinada altura, sentindo-me já um pouco mal tratado, fruto de tanto murro, pontapé e cabeçada, não tive outra hipótese se não recorrer àquilo que o António-Pedro tanto se esforçou por que ficasse de fora desta nossa experiência: o meu pensamento. O problema é que, ao invés de convocar a razão para analisar aquilo que o seu filme me ia dando a conhecer, fi-lo por um questão de sobrevivência, numa tentativa de encontrar a melhor forma de me defender do ‘bullying’ cinematográfico de que me sentia estar a ser vítima: “não posso levar com mais nenhum ‘clichê’ desta envergadura em cima, ou vou acabar por sair daqui feito num oito”, pensei. “Já percebi por onde o homem me quer levar, e está visto que o vai fazer à bruta; pois a mim já não me apanha desprevenido".

Vivi então alguns momentos de tranquilidade, ancorado na previsibilidade do enredo fácil que o António-Pedro continuava a desenrolar sem pejo.

Mas a verdade é que a serenidade não durou muito. Aos poucos, esta foi dando lugar à perplexidade, que por sua vez se foi transformando em incredulidade. "Mas tu queres ver que o tipo vai mesmo pôr o livro do puto a ser publicado!? Não!? A sério!? Não acredito...”

E eis que o meu caro torna a aparecer no filme, desta feita sentado atrás de uma secretária, vestindo a pele do editor capaz de reconhecer o engenho e a arte (ou simplesmente pagando dívidas antigas), e faz então entrar a sua jovem colaboradora, responsável pela área dos novos talentos…

Sou-lhe sincero: já me tinha rido por diversas vezes ao longo do filme, à medida que ia recebendo as confirmações sucessivas de que o senhor não tinha vergonha nenhuma em abusar declaradamente do estereótipo, mas quando o plano nos mostra o rosto da rapariga, e com ele a mais do que óbvia promessa de amor, símbolo derradeiro da tão ansiada redenção do herói, foi a primeira vez que a minha sonora gargalhada ecoou verdadeiramente solta pelo interior da sala (praticamente vazia, diga-se: talvez porque jogava o seu Benfica)…

Depois desse momento, agora o sei, já nada havia a fazer: perdeu-se o siso e instalou-se o riso. Frame após frame, fui-me descontrolando progressivamente. Cada cena era como que uma explosão que me atirava para o lugar da histeria: o convite da velha para jantar, a miúda que lia o banal texto do puto que “sonhava com mamas”, etc., etc., etc... A excitação tomava conta de mim, e as gargalhadas, impossíveis de conter, transbordavam livremente, indo ao encontro da plateia que o António-Pedro, imagino, continuava heroicamente a tentar levar ao colo...

Não lhe sei dizer há quanto tempo não via um filme tão fraco, tão condescendente com o público, nem há quanto tempo não me levantava e abandonava uma sala antes da cena final. Mas sei o seguinte: nunca, até hoje, tinha fugido do cinema em desespero por ser incapaz de conter um grotesco e incontrolável ataque de riso. Foi uma estreia, lá isso foi…

Atenciosamente,

Filipe Feio

P. S. - Esta coisa que o António-Pedro decidiu filmar não merecia ter sido financiada, nem tão pouco merecia a Maria do Céu Guerra...

terça-feira, outubro 21, 2014

...

"Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me."

(Stig Dagerman, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer)

segunda-feira, outubro 20, 2014

...

"Nunca fui excessivamente infeliz - porque não tenho imaginação: não me consumia, rondando e almejando em torno de paraísos fictícios, nascidos da minha própria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago."

(Eça de Queiroz, O Mandarim)