segunda-feira, maio 02, 2016

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Já não vai a correr, talvez porque já não vai a fugir...

segunda-feira, abril 18, 2016

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A vida é um longo adeus.

domingo, abril 17, 2016

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"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou." (Vergílio Ferreira, Escrever)

quinta-feira, abril 14, 2016

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"The world is a hellish place, and bad writing is destroying the quality of our suffering." (Tom Waits)

quinta-feira, abril 07, 2016

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"[...] e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto." (Raduan Nassar, Um copo de cólera)

domingo, março 13, 2016

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"Nós somos animais de linguagem, e é este atributo que, mais do que qualquer outro, faz com que o nosso estado efémero seja suportável e profícuo. A evolução no discurso humano (possivelmente tardia), dos conjuntivos, dos optativos, dos condicionais contrafactuais e das formas verbais que exprimem o futuro (nem todas as línguas têm tempos), definiu e salvaguardou a nossa humanidade. É por sermos capazes de contar histórias, sejam elas fictícias ou matemático-cosmológicas, sobre um universo criado há biliões de anos; é por sermos capazes de, como já referi, discutir e conceber a manhã de segunda-feira depois da nossa cremação; é por os nossos «se» («Se eu ganhasse a lotaria», «Se Schubert tivesse atingido a maturidade», «Se encontrarem uma vacina contra a sida») serem capazes de, a seu bel-prazer, negarem, reconstruírem e alterarem o passado, o presente e o futuro, delineando de outro modo os determinantes da realidade pragmática; é por isto que a realidade continua a valer a pena. A esperança é a gramática." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

sábado, março 12, 2016

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Brandolini's law: "The amount of energy needed to refute bullshit is an order of magnitude bigger than to produce it."

sábado, fevereiro 27, 2016

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"Não há nada que alimente maior ódio nas nossas consciências do que a percepção, sugerida por outrem, de que não estamos à altura [...] Não há nada de mais insuportável do que lembrarem-nos constantemente, perpetuamente, aquilo que devíamos ser e que, evidentemente, não somos." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

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"Dói tanto a reflexão e o peso exacto das coisas..."

(João César Monteiro, Corpo Submerso)

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

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"É curioso. Não creio ter já muita vida espiritual. No meu interior, tudo parece claro, sereno, vazio. São as vozes dos pássaros, é a luz avermelhada contra essa parede de órgãos barrocos, é o sabor amargo, forte e puro do café sem açúcar. Mas nem uma amargura, recordação ou inquietude. Estou suspenso num giroscópio. Estou vazio, límpido e claro. Talvez, por fim, tenha conseguido. Talvez, por narrar, me tenha libertado." (Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor)

quinta-feira, janeiro 28, 2016

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- Irrita-me essa gente que passa a vida a pôr-se em bicos dos pés...
- Não te irrites, Zé...
- Nem vergonha têm, não percebem sequer que há malta que os topa logo, de cada vez que se esticam todos...
- A maioria não topa, Zé, louva, aplaude, elogia. Nem eles próprios se topam...
- Irritam-me, se tivessem consciência de que o fazem porque se sentem pequenos, e que é isso que revelam...
- Se tivessem essa consciência já seriam um pouco maiores, Zé. Não te irrites com isso...

domingo, janeiro 24, 2016

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Exercido o direito de voto, sou violentamente invadido por uma excitação familiar, aquela que advém da consciência de que o País nunca mais será o mesmo. Ainda trémulo, momentaneamente abalado pela visão inequívoca de um futuro melhor, cruzo-me no corredor com o hipopótamo Felisberto, que, sorumbático como sempre, aguarda impaciente a sua vez....

quarta-feira, janeiro 06, 2016

O SISTEMA

(Centro de Saúde, Lisboa)

- Vai ter de aguardar, estamos sem sistema.
- Eu tive o cuidado de marcar para agora precisamente porque não podia mais tarde. Não é possível...?
- Vai ter de aguardar, não podemos fazer nada: se não picarmos aqui como é que lá dentro sabem que o utente já está aqui à espera?
- ...

quarta-feira, dezembro 02, 2015

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Eu tenho um amigo que é radical. E tenho outro que é moderado. O meu amigo radical julga-se moderado. E acusa constantemente o meu amigo moderado de ser radical.

sexta-feira, novembro 13, 2015

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"[...] a alegria de abraçá-lo, de lhe falar, de bebermos juntos. Arrastou-me para uma espécie de boîte local, o Ferro-Velho, que é curioso porque diferente (recomendo-lhes que o visitem). Vá de ceia, com cabrito assado e muito regada. Vá de bailarico: Vergílio Ferreira dançando o ié-ié. Cantando baladas coimbrãs, um fadinho rigoroso. Tocando violão. Incendiando a mesa com anedotas picantes. Rindo-se a escâncaras e fazendo rir os mais. Saltando para um banco ao dar da meia-noite, como é o ritual. Descontraído. Todo anti-angústias. Por vezes isolando-se comigo numa palestra mais atenta. Doutrinando-me. Apanhando algumas alfinetadas cá da minha lavra. Animando a solidão em que me encontrara. Deitando à socapa olhares lúbricos a uma admiradora desconhecida [...]
Em suma: encontro original, «mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção - ou não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez». Se merece relato, nesta croniqueta amena, a clandestina sortida de um escritor que nos (insistentemente) aparecia confinado num mundo de pura amargura é porque vejo moralidade nisso. É para, de propósito, mais uma vez vos fazer recordar que no Escritor, tal como ele pode querer e consegue impressionar através da palavra, coabita um homem. Um corpo que não abdica de uma alegria breve."

(Luiz Pacheco, O meu fim-de-ano com Vergílio Ferreira no Ferro-Velho, farejando a «Carta ao Futuro», 'Notícia', Luanda, 10.Fev.1968)

quinta-feira, novembro 12, 2015

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Esplanada do café, ao meu lado:

- Amigo, desculpe, não me arranja umas moedas... (analisa timidamente a receptividade do seu interlocutor, este impassível)... ou me compra qualquer coisa para comer?
- Arranjo-lhe umas moedas, se precisa. Não sou seu pai. Não quero saber em que vai gastar o dinheiro. É adulto, faz o que entender.
- Obrigado por falar assim. Não é fácil ter de pedir na rua, aos 54 anos...
- Imagino... Não tem de quê. Tome lá, é o que tenho...

quinta-feira, novembro 05, 2015

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"Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso."

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

quarta-feira, novembro 04, 2015

A SOMA

Diante da cal de uma parede que nada
nos impede de imaginar infinita
sentou-se um homem que premedita
traçar com rigorosa pincelada
na branca parede o mundo inteiro:
portas, balanças, sedimentos, jacintos,
anjos, bibliotecas, labirintos,
âncoras, Uxmal, o infinito, o zero.
Povoa de formas a parede. A sorte,
que em curiosos dons não é avara,
permite-lhe dar fim à sua porfia.
No preciso instante da morte
descobre que essa vasta algaravia
de linhas é a imagem da sua cara.

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

sábado, outubro 31, 2015

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- Mestre, desculpe-me, tenho estado a pensar: porque é que eu acredito naquilo em que acredito?
- Talvez precises de acreditar, gafanhoto. Talvez precises...
- Mestre, mas porque é que eu preciso de acreditar?
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- Gafanhoto, repara no homem que se equilibra no topo daquela escada...
- Refere-se ao que se encontra a reparar a cobertura do templo, mestre?
- Sim, gafanhoto, esse mesmo. Aquela escada é a sua ferramenta de trabalho há mais de vinte anos, labor do qual depende o sustento da sua numerosa família. Vivendo inevitavelmente no limite das suas economias, não tem, nem terá nunca, dinheiro para comprar uma nova. Aquela terá de servir, mesmo estando já oca, âmago minuciosamente devorado por um incansável exército de insectos xilófagos.
- Mas é perigoso, mestre. Põe em risco a sua vida. Porque sobe então ele, se pode cair lá de cima a qualquer momento?
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segunda-feira, julho 13, 2015

#mariacapaz

Dona Gertrudes, proprietária do café aqui da rua, cuida há anos de uma cadelinha rafeira muito simpática, que baptizou de Maria, e que tem o hábito de vadiar livremente pelo bairro e redondezas. Quando se lhe dá a sede ou a fome, é vê-la correr desconjuntadamente em direcção ao café da dona adoptiva. Três altos degraus a separam do interior do estabelecimento, onde dois pratos a aguardam, sempre, com água e ração, respectivamente. Ora, o problema é que Maria só tem três patas, vítima que foi de um atropelamento - ainda cachorra e já abandonada - frente ao tasco daquela que (veja-se a sorte a nascer do azar) viria a ser sua dona. Não é incomum dar com ela a debater-se, entre latidos e gemidos, para conseguir escalar aquela montanha em forma de escadaria. Habitual também é ver um freguês, assistindo desconfortável ao esforço da cadela pela primeira vez, levantar-se para ajudar. "Deixe estar que ela é capaz, senhor. Não se incomode que a Maria é capaz", atira dona Gertrudes de trás do balcão, invariavelmente...