sexta-feira, fevereiro 12, 2016

...

"Dói tanto a reflexão e o peso exacto das coisas..."

(João César Monteiro, Corpo Submerso)

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

...

"É curioso. Não creio ter já muita vida espiritual. No meu interior, tudo parece claro, sereno, vazio. São as vozes dos pássaros, é a luz avermelhada contra essa parede de órgãos barrocos, é o sabor amargo, forte e puro do café sem açúcar. Mas nem uma amargura, recordação ou inquietude. Estou suspenso num giroscópio. Estou vazio, límpido e claro. Talvez, por fim, tenha conseguido. Talvez, por narrar, me tenha libertado." (Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor)

quinta-feira, janeiro 28, 2016

...

- Irrita-me essa gente que passa a vida a pôr-se em bicos dos pés...
- Não te irrites, Zé...
- Nem vergonha têm, não percebem sequer que há malta que os topa logo, de cada vez que se esticam todos...
- A maioria não topa, Zé, louva, aplaude, elogia. Nem eles próprios se topam...
- Irritam-me, se tivessem consciência de que o fazem porque se sentem pequenos, e que é isso que revelam...
- Se tivessem essa consciência já seriam um pouco maiores, Zé. Não te irrites com isso...

domingo, janeiro 24, 2016

...

Exercido o direito de voto, sou violentamente invadido por uma excitação familiar, aquela que advém da consciência de que o País nunca mais será o mesmo. Ainda trémulo, momentaneamente abalado pela visão inequívoca de um futuro melhor, cruzo-me no corredor com o hipopótamo Felisberto, que, sorumbático como sempre, aguarda impaciente a sua vez....

quarta-feira, janeiro 06, 2016

O SISTEMA

(Centro de Saúde, Lisboa)

- Vai ter de aguardar, estamos sem sistema.
- Eu tive o cuidado de marcar para agora precisamente porque não podia mais tarde. Não é possível...?
- Vai ter de aguardar, não podemos fazer nada: se não picarmos aqui como é que lá dentro sabem que o utente já está aqui à espera?
- ...

quarta-feira, dezembro 02, 2015

...

Eu tenho um amigo que é radical. E tenho outro que é moderado. O meu amigo radical julga-se moderado. E acusa constantemente o meu amigo moderado de ser radical.

sexta-feira, novembro 13, 2015

...

"[...] a alegria de abraçá-lo, de lhe falar, de bebermos juntos. Arrastou-me para uma espécie de boîte local, o Ferro-Velho, que é curioso porque diferente (recomendo-lhes que o visitem). Vá de ceia, com cabrito assado e muito regada. Vá de bailarico: Vergílio Ferreira dançando o ié-ié. Cantando baladas coimbrãs, um fadinho rigoroso. Tocando violão. Incendiando a mesa com anedotas picantes. Rindo-se a escâncaras e fazendo rir os mais. Saltando para um banco ao dar da meia-noite, como é o ritual. Descontraído. Todo anti-angústias. Por vezes isolando-se comigo numa palestra mais atenta. Doutrinando-me. Apanhando algumas alfinetadas cá da minha lavra. Animando a solidão em que me encontrara. Deitando à socapa olhares lúbricos a uma admiradora desconhecida [...]
Em suma: encontro original, «mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção - ou não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez». Se merece relato, nesta croniqueta amena, a clandestina sortida de um escritor que nos (insistentemente) aparecia confinado num mundo de pura amargura é porque vejo moralidade nisso. É para, de propósito, mais uma vez vos fazer recordar que no Escritor, tal como ele pode querer e consegue impressionar através da palavra, coabita um homem. Um corpo que não abdica de uma alegria breve."

(Luiz Pacheco, O meu fim-de-ano com Vergílio Ferreira no Ferro-Velho, farejando a «Carta ao Futuro», 'Notícia', Luanda, 10.Fev.1968)

quinta-feira, novembro 12, 2015

....

Esplanada do café, ao meu lado:

- Amigo, desculpe, não me arranja umas moedas... (analisa timidamente a receptividade do seu interlocutor, este impassível)... ou me compra qualquer coisa para comer?
- Arranjo-lhe umas moedas, se precisa. Não sou seu pai. Não quero saber em que vai gastar o dinheiro. É adulto, faz o que entender.
- Obrigado por falar assim. Não é fácil ter de pedir na rua, aos 54 anos...
- Imagino... Não tem de quê. Tome lá, é o que tenho...

quinta-feira, novembro 05, 2015

...

"Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso."

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

quarta-feira, novembro 04, 2015

A SOMA

Diante da cal de uma parede que nada
nos impede de imaginar infinita
sentou-se um homem que premedita
traçar com rigorosa pincelada
na branca parede o mundo inteiro:
portas, balanças, sedimentos, jacintos,
anjos, bibliotecas, labirintos,
âncoras, Uxmal, o infinito, o zero.
Povoa de formas a parede. A sorte,
que em curiosos dons não é avara,
permite-lhe dar fim à sua porfia.
No preciso instante da morte
descobre que essa vasta algaravia
de linhas é a imagem da sua cara.

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

sábado, outubro 31, 2015

...

- Mestre, desculpe-me, tenho estado a pensar: porque é que eu acredito naquilo em que acredito?
- Talvez precises de acreditar, gafanhoto. Talvez precises...
- Mestre, mas porque é que eu preciso de acreditar?
...
- Gafanhoto, repara no homem que se equilibra no topo daquela escada...
- Refere-se ao que se encontra a reparar a cobertura do templo, mestre?
- Sim, gafanhoto, esse mesmo. Aquela escada é a sua ferramenta de trabalho há mais de vinte anos, labor do qual depende o sustento da sua numerosa família. Vivendo inevitavelmente no limite das suas economias, não tem, nem terá nunca, dinheiro para comprar uma nova. Aquela terá de servir, mesmo estando já oca, âmago minuciosamente devorado por um incansável exército de insectos xilófagos.
- Mas é perigoso, mestre. Põe em risco a sua vida. Porque sobe então ele, se pode cair lá de cima a qualquer momento?
- ...

segunda-feira, julho 13, 2015

#mariacapaz

Dona Gertrudes, proprietária do café aqui da rua, cuida há anos de uma cadelinha rafeira muito simpática, que baptizou de Maria, e que tem o hábito de vadiar livremente pelo bairro e redondezas. Quando se lhe dá a sede ou a fome, é vê-la correr desconjuntadamente em direcção ao café da dona adoptiva. Três altos degraus a separam do interior do estabelecimento, onde dois pratos a aguardam, sempre, com água e ração, respectivamente. Ora, o problema é que Maria só tem três patas, vítima que foi de um atropelamento - ainda cachorra e já abandonada - frente ao tasco daquela que (veja-se a sorte a nascer do azar) viria a ser sua dona. Não é incomum dar com ela a debater-se, entre latidos e gemidos, para conseguir escalar aquela montanha em forma de escadaria. Habitual também é ver um freguês, assistindo desconfortável ao esforço da cadela pela primeira vez, levantar-se para ajudar. "Deixe estar que ela é capaz, senhor. Não se incomode que a Maria é capaz", atira dona Gertrudes de trás do balcão, invariavelmente...

sábado, julho 11, 2015

...

Aquele momento em que subitamente te cruzas com João César das Neves numa livraria e em que ficas sem saber o que fazer: se um jab ou se um uppercut.

sexta-feira, julho 10, 2015

...

O vídeo em que Guy Verhofstadt se dirige a Tsipras foi amplamente divulgado. Alguns cronistas da nossa praça não resistiram a dar destaque enviesado ao episódio. Nas suas prosas, descrevem um Tsipras constrangido, desconfortável, comprometido, esmagado até, perante a argumentação do agitado belga. Insinuam que o grego não teve outra hipótese se não a de se remeter a um revelador silêncio, não tendo o que responder a tão iluminada criatura. Não sei se é fundamentalismo, pura limitação, se subitamente lhes pára o cérebro, ficando incapazes de analisar com objectividade a situação, projectando no silencioso grego aquilo que desejam ardentemente que ele esteja a sentir, tal é a excitação que sobrevém (Tsipras estava, obviamente, e como manda o protocolo, a aguardar a sua vez de intervir - o vídeo do momento em que o faz está disponível); ou se é algo muito pior, já do domínio da abjecção, sobretudo quando se trata de alguém inteligente: a deliberada desonestidade intelectual. Eu teria vergonha...

quarta-feira, julho 08, 2015

...

"The cradle rocks above an abyss, and common sense tells us that our existence is but a brief crack of light between two eternities of darkness. Although the two are identical twins, man, as a rule, views the prenatal abyss with more calm than the one he is headed for (at some forty-five hundred heartbeats an hour). I know, however, of a young chronophobiac who experienced something like panic when looking for the first time at homemade movies that had been taken a few weeks before his birth. He saw a world that was practically unchanged — the same house, the same people — and then realized that he did not exist there at all and that nobody mourned his absence. He caught a glimpse of his mother waving from an upstairs window, and that unfamiliar gesture disturbed him, as if it were some mysterious farewell. But what particularly frightened him was the sight of a brand-new baby carriage standing there on the porch; even that was empty, as if, in the reverse order of events, his very bones had disintegrated."

(Vladimir Nabokov, Speak, Memory: An Autobiography Revisited)

terça-feira, julho 07, 2015

...

Há pouco, estive a ler uma história infantil muito bonita, que todos os pais deviam ler a seus filhos. Era sobre três meninos: Helmut, Georgios e José. Helmut, maior e mais forte, passava a vida a maltratar Georgios e José, que muito iam sofrendo com os abusos do brigão. Lamentando-se um ao outro, iam sonhando com um futuro em que, juntos, fariam frente ao brutamontes. Até que um dia, depois de mais um empurrão, e cansado de tanta humilhação, Georgios se ergue e se revolta, fazendo frente a Helmut. "Não, mais não. Chega!." José, presenciando a cena, rapidamente se demarca de Georgios. Repudiando-o veementemente pela sua afronta, faz saber a Helmut que, depois da sova merecida que deverá dar a Georgios, gostaria também muito de levar a sua.

quarta-feira, junho 03, 2015

...

ontem uma cigana
leu minha mão
e só encontrou solidão.

(Diego Moraes)

Louro, o "jornalista"

Gostava de dedicar o seguinte microconto à autora das reportagens sobre exorcismos e possessões demoníacas publicadas no jornal 'i' no passado sábado:

Louro, o "jornalista"

Na papelaria da zona onde habito,
há um papagaio que repete o que lhe é dito.

sábado, maio 30, 2015

...

Boris: Nothingness. Non-existence. Black emptiness.
Sonja: What did you say?
Boris: Oh, I was just planning my future.

(Woody Allen, Life and Death)

quinta-feira, maio 28, 2015

...

"Pois se existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar uma outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta."

(Albert Camus, Núpcias)

quarta-feira, maio 27, 2015

você é a melhor coisa

amor,
você é a melhor coisa que já me aconteceu
de longe você é a melhor coisa que deus me deu

e isso pode te dar uma ideia
[ainda que vaga]
da grande merda que tem sido a minha vida

(Geruza Zelnys, Esse livro não é pra você)