quarta-feira, dezembro 29, 2010

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‎"Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que estava sozinho." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)

quarta-feira, dezembro 22, 2010

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"No amor nunca os pratos da balança estão equilibrados. E como a essência do amor é etérea, quem pesa mais é quem ama menos." (Vergílio Ferreira, Pensar)

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"Haverá alguém de espírito humilde que tenha convicções fortes?"(Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 5)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

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"O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo." (Vergílio Ferreira, Pensar)

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"Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima." (Vergílio Ferreira, Pensar)

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"Não penses que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora." (Vergílio Ferreira)

quinta-feira, dezembro 16, 2010

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"Quando morreres, só levarás aquilo que tiveres dado."
(Muslah-Al-Din Saadi, O Jardim das Rosas)

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"Há os livros que antes de lidos já estão lidos. Há os que se lêem todos e ficam logo lidos todos. E há os que nos regateiam a leitura e que pedimos humildemente que se deixem ler todos e não deixam e vão largando uma parte de si pelas gerações e jamais se deixam ler de uma vez para sempre." (Vergílio Ferreira, Escrever)

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"Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha." (Vergílio Ferreira, Escrever)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

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"Exige-se, para o perfeito amor, que o amado ame o amante; que este ame, em si próprio, o amante que ama o amado e que o amado ama, o mesmo tendo de haver no correspondente. Que os amantes amem nos amados os amantes que a eles os amam. Ou, mais simples: que o amor se ame." (Agostinho da Silva)

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"Todo o homem é diferente de mim e único no Universo; não sou eu, por conseguinte, quem tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de ajudar a ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros." (Agostinho da Silva)

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"All wars are civil wars, because all men are brothers." (François Fénelon)

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"Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama." (Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

terça-feira, dezembro 14, 2010

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

(Ferreira Gullar)

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O que se foi

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

(Ferreira Gullar)

domingo, dezembro 12, 2010

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"A verdade permanece sepultada sob as máximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver à arte de viver com baixeza. Não se põe diferença entre conhecer o mundo e enganá-lo." (Montesquieu)

sexta-feira, dezembro 10, 2010

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"I once had a sparrow alight upon my shoulder for a moment, while I was hoeing in a village garden, and I felt that I was more distinguished by that circumstance that I should have been by any epaulet I could have worn." (Henry David Thoreau)

terça-feira, dezembro 07, 2010

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"Tu és jovem e anseias por casamento e filhos. Mas pergunto, és homem que ouses desejar um filho? És acaso um vitorioso; um dominador de ti próprio, um comandante dos sentidos, um senhor das tuas virtudes? - Ou no teu desejo só fala o animal, a necessidade? Ou a solidão? Ou a discórdia contigo mesmo? Eu quero que a tua vitória e liberdade desejem um filho. Construirás um monumento vivo sobre a tua vitória e liberdade. Construirás para além de ti mesmo. Mas, primeiro, tens de construir-te sólido de alma e corpo. Não apenas propagar, mas propagar-se para cima! Casamento: assim eu chamo à vontade de dois para criar um que seja mais que aqueles que o geraram." (Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratrusta)

segunda-feira, dezembro 06, 2010

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"Antes conservava-me muito perto das pessoas, à superfície da solidão, bem decidido, em caso de alarme, a refugiar-me no meio delas." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)

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"Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raras vezes penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso, e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução." (Jean-Paul Sartre, A Náusea)

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Crazy & Saints

I choose my friends not by their skin or other archetype, but by the pupil.
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I'm not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I'll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don't want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they daunt doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don't just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn't laugh together doesn't know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don't want foreseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don't want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don't forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they're never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that 'normalcy' is a sterile and imbecile illusion.

(Oscar Wilde)

terça-feira, novembro 30, 2010

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"As pessoas tomam toda esta comédia por qualquer coisa de muito sério, mesmo as que são dotadas de um intelecto a toda a prova. É nisso que reside a tragédia delas. E sofrem, é claro, mas... em compensação, vivem, vivem realmente e não ilusoriamente, porque a vida é isso mesmo: sofrimento. Sem sofrimento, que graça teria a vida? Tudo se transformaria num infinito Te Deum: isso é coisa santa, mas um pouco enfadonha. (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

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"Nos sonhos, e especialmente nos pesadelos, causados por, digamos, desarranjos estomacais, ou por qualquer outra coisa, o homem por vezes vê coisas tão artísticas, vê uma realidade tão complexa e verosímil, acontecimentos, ou mesmo séries completas de acontecimentos com um enredo a ligá-los e com pormenores tão inesperados, desde as vossas manifestações mais sublimes até ao mero botão de punho, que nem o próprio Lev Tolstói, juro-te, seria capaz de inventar."
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

sexta-feira, novembro 26, 2010

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Passo a vida a sonhar outros mundos, e, por vezes, sonho mundos em que me encontro a sonhar este...

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"Congrego os fantasmas dos velhos piratas em torno do silêncio... Solto as amarras da eterna solidão, firmo as mãos calejadas no leme, sem prender, e derramo na imensidão do horizonte as mais íntimas perplexidades. Acordo a manhã funda com um grito: "Mar à vista! Mar à vista!" Sou dono do porvir, mestre dos ventos e senhor das tempestades..."
(Manuel Albernoa)

sexta-feira, novembro 19, 2010

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‎"Não basta possuí-la. Quero que ela se me abandone."
(Pierre-Ambrose Choderlos de Laclos, As ligações perigosas)

quinta-feira, novembro 18, 2010

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"Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significado: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo." (Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante)

quarta-feira, novembro 17, 2010

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"Na concreção que se formava, a ansiedade tornava-se mais febril, mais exigente, mais confiada de si mesma, e era como se eu, não sabendo de mim, não desejando nada, não pensando em nada, nunca me tivesse sentido tão duramente lúcido." (Jorge de Sena, Sinais de Fogo)

terça-feira, novembro 09, 2010

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"The one thing that a fish can never find is water." (Eric Butterworth)

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"There is something curiously boring about somebody else's happiness." (Aldous Huxley)

segunda-feira, novembro 08, 2010

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"Em geral não se imagina Platão e Aristóteles senão com grandes togas e como personagens sempre sérias e graves. Eram pessoas cortezes, que se riam como os outros e com os seus amigos: e quando fizeram as suas leis e os seus tratados de política foi a brincar e para se divertirem. Era a parte menos filosófica e menos séria da sua vida. A mais filosófica era viver simples e tranquilamente." (Pascal, em Livro dos Amigos, de Hugo Von Hofmannsthal)

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"Se o meu tempo me contesta,
Sereno o hei-de aceitar,
Que eu doutros tempos já venho
E espero a outros chegar."

(Franz Grillparzer)

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"O caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria."
(William Blake)

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"Para quem pensa, a própria morte não é uma coisa tão séria como o casamento." (W. J. Landor)

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"O poeta nunca está inteiramente absorto nos seus pensamentos. O técnico está sempre." (Addison)

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"No carácter de cada pessoa há qualquer coisa que não se pode quebrar - a ossatura do carácter; e querer mudar isto significa sempre ensinar uma ovelha a ir buscar caça." (Lichtenberg, em Livro dos Amigos, de Hugo Von Hofmannsthal)

quinta-feira, novembro 04, 2010

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"Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso, muito nosso e apenas isso, mas repito: se, em comparação com muita gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo (-me) e não sou capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerscência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? Porque desconfio, duvido, amontoando hipóteses, alterando dados na aparência irrefutáveis e, em frieza quase absoluta, distinguindo os meus sentimentos ternos pelas pessoas da análise implacável do que elas são ou de como as queria? e repelindo-as ou chegando-me a elas, na convivência forçada ou fascinante que temos de aceitar com o Outro?

Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo?
Ou fui sempre"

(Luiz Pacheco, Uma Admirável Droga)

segunda-feira, outubro 25, 2010

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"Conheço uma certa emoção das horas, sei da aparição dos instantes-limite, das vozes submersas, e gostava de dar aos outros essa notícia. Há uma vida atrás da vida, uma irrealidade presente à realidade, mundo das formas de névoa, mundo incoercível e fugidio, mundo da surpresa e do aviso. Assim o próprio presente pode ter a voz do passado, vibrar como ele à obscuridade de nós. A minha retórica vem do desejo de prender o que me foge, de contar aos outros o que ainda não tem nome e onde as palavras se dissipam com a névoa do que narram." (Vergílio Ferreira, Aparição)

quarta-feira, outubro 20, 2010

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"Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV)

sexta-feira, outubro 15, 2010

Stranger...

"Stranger, if you passing meet me and desire to speak to me, why should you not speak to me? And why should I not speak to you?"
(Walt Whitman)

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"A reflexão sanciona o fim da inocência mítica. A seguir o homem não pode deixar-se levar senão por evidências estabelecidas, converte-se em artesão da verdade [...] A existência funda-se numa ruptura, numa separação de si em relação a si, de si em relação ao mundo e de si em relação a Deus." (Georges Gusdorf, Mito y metafísica)

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"Eu, porém, relembrava o meu susto à súbita presença de alguém que agora sabia ser eu. [...] Mas no outro dia, assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo." (Vergílio Ferreira, Aparição)

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"Para elas (a imensa maioria das criaturas humanas), viver é entregar-se ao unânime, deixar que os costumes, os preconceitos, os tópicos, os usos se instalem no interior. São espíritos débeis que (...) se sentem ameaçados e se preocupam então, precisamente para tirarem dos ombros o próprio peso que eles são, com atirarem-no sobre a colectividade, isto é, preocupam-se com despreocupar-se (...) um humilde afã de ser como os demais, de renunciar à possibilidade diante do próprio destino, dissolvendo-se no meio da multidão; é o eterno ideal do débil: a sua preocupação é fazer o que toda a gente faz." (José Ortega y Gasset, Que és filosofia?)

quinta-feira, outubro 14, 2010

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"Viajar é uma busca do que nunca se encontra. Porque o que pode encontrar-se está em nós. Dado o balanço, é o que há de mais interessante. O outro viajava à roda do seu quarto. Eu viajo à roda de mim que sempre está mais perto, mesmo assim. E não se pode dizer que tenha menos interesse do que quatro paredes." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente V)

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"Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa é esse íntimo de nós para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi tão violento, jamais como hoje fomos invadidos do que não é nós. É lá nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV)

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"Tenho uma saudade imensa do mundo que vai nascer."
(Vergílio Ferreira, Conta-Corrente I)

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"A vida é feita de desperdícios em que se não faz absolutamente nada. Penso assim que ela foi malbaratada, que desbaratamos o que se poderia aproveitar em vida intensa e desse modo jamais poderemos recuperar. Mas acaso o homem não nasceu para isso mesmo? Para esbanjar? Uma vida totalmente aproveitada seria talvez insuportvável pelo imenso desgaste que de nós exigiria em nervos, emotividade, esforço mental." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente V)

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"Estás sentada no teu maple, as pernas estendidas, como costume, sobre uma cadeira, olhar absorto na TV. E de súbito, penso: dentro de algum tempo não nos veremos mais." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV)

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"É um lugar-comum dizer-se que 'não há amor como o primeiro'. E todavia não é verdade. O amor contrói-se longamente e não há assim amor como o último, o que dura ou devia durar até à morte." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV)

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"Estavam velhos e eram um casal muito unido. Por isso a forma de comunicarem entre si era naturalmente a agressão. Porque a agressão era nesse caso uma forma de distanciar o que está muito grudado. Como a fita gomada que se cola aos dedos. (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente V)

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"Nunca fui capaz [de manter um diário]. Creio que por pudor, digamos, por falta de coragem. Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós (é-me difícil falar de mim). Aliás como os outros, desconheço-me. Talvez, também porque me evito. A verdade é que, quando me encontro bem pela frente, reconheço-me intragável. Mas enfim as virtudes são também desgostantes." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente I)

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"Em todo o caso, nos erros cometidos, no que foi verdade e falhou e se consumiu, no que me excitou e não tinha razão, um valor persiste quando a tudo dou um balanço e é o valor da própria vida. Só para ter existido valeu a pena existir. A maior recompensa da vida é ela própria. Creio que em que tudo o que disse não disse afinal outra coisa. Creio que de tudo o que me fascinou nada me fascinou mais do que a vida, o seu mistério inesgotável, a sua inesgotável maravilha. Dou o balanço a tudo quanto me aconteceu e a vertigem de ter vivido absorve e aniquila tudo o que aí falhou e mentiu. Foi bom ter nascido. Foi bom não ter acabado ainda de nascer..." (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente V)

quarta-feira, outubro 13, 2010

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"[...] muito cedo tomei consciência da imensa distância entre o que se imagina e se é de facto (e não me excluo a mim próprio), porque, por feitio e visão, me convenci e convenço da irremediável solidão que é a vida, porque sei bem quanto gestos e palavras ficam sempre por fazer e dizer [...]" (Jorge de Sena a Mécia de Sena)

terça-feira, outubro 12, 2010

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"Onde eu não estou, as palavras me acham." (Manoel de Barros)

segunda-feira, outubro 11, 2010

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"Porque é que dizes quem me dera ser feliz e não dizes quem me dera ser medíocre? Porque dirias a mesma coisa. E o que provas ao dizê-lo é só que afinal já o eras." (Vergílio Ferreira)

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"O homem feliz é aquele que, ao despertar, se reencontra com prazer, e se reconhece como aquele que gosta de ser." (Paul Valéry)

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"Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim." (Vergílio Ferreira)

sexta-feira, outubro 08, 2010

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“Twenty years from now you will be more disappointed by the things you didn’t do than by the ones you did do. So throw off the bowlines, sail away from the safe harbor. Catch the trade winds in your sails. Explore. Dream. Discover." (Mark Twain)
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"Two roads diverged in a wood and I - I took the one less traveled by, and that has made all the difference." (Robert Frost)
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"Do not follow where the path may lead. Go instead where there is no path, and leave a trail." (Ralph Waldo Emerson)
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"Not all those who wander are lost." (J. R. R. Tolkien)
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"All journeys have secret destinations of which the traveler is unaware." (Martin Buber)
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"The only journey is the journey within." (Rainer Maria Rilke)

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“If I discover within myself a desire which no experience in this world can satisfy, the most probable explanation is that I was made for another world." (C.S. Lewis)

quarta-feira, outubro 06, 2010

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"Que distância entre esta triste prudência de hoje e aquela audácia, aquela intemperança de confiança doutros tempos! Mas silêncio! Não nos oiça o fantasma melancólico dos anos idos. A rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como a hera para os muros que veste a abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais bem ligadas, abrindo-as, descolando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína - uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão. Assim, pois, procuremos o sossego interior como última salvaguarda das liberdades do espírito. É o que se pode conservar no deserto de todas as esperanças."
(Antero de Quental, Cartas)

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"A escrita é apenas o esqueleto da ideia."
(Antero de Quental)

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"Se o pensamento indaga, o coração adivinha. Àquele podem iludi-lo os erros, que um desvio lhe introduza no cálculo atrevido. Mas a este não, que não calcula nem compara: vê e sente. Não é livre, não é activo; mas por isso mesmo se não pode enganar. É lá que a mesma lei da existência vive oculta, e dali solta os seus oráculos sempre certos."
(Antero de Quental, Cartas)

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"A felicidade, para mim, consiste em gozar de boa saúde, em dormir sem medo, e em acordar sem angústia." (Françoise Sagan)

segunda-feira, outubro 04, 2010

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"O erotismo é uma paixão que requer valentia."
(Emmanuelle Arsan, Emmanuelle)

sexta-feira, outubro 01, 2010

Solidão...

"É exactamente porque não há solidão que dizes que solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros..." (Vergílio Ferreira, Estrela Polar)

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Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sozinhos.

(Reinaldo Ferreira, Poemas)

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"[...] um homem solitário, como todo o verdadeiro homem, (é) um ser que que vive em si próprio, que longamente se prepara antes de caminhar para os outros homens, a levar-lhes uma lição de força, seja a força do amor ou do ódio, seja a lição da alegria ou da vingança."
(Herberto Helder, Os Passos em Volta)

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"A arte não é, a meu ver, um prazer solitário. É um meio de comover o maior número de homens oferecendo-lhe uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns. Obriga, portanto, o artista a não se isolar; submete-o à verdade mais humilde e mais universal. E aquele que, muitas vezes, escolhe o seu destino por se sentir diferente, aprenderá bem depressa que só alimentará a sua arte e a sua diferença confessando a sua semelhança com o comum dos mortais. O artista forja-se nessa ida-e-volta perpétua de ele para os outros, a meio caminho entre a beleza que não pode dispensar e a comunidade a que não pode fugir."
(Albert Camus, Discours de Suède)

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- Aliocha, diga-me também outra coisa: vai obedecer-me sempre? É preciso também resolver já isto desde já.
- E com muito prazer, Lise, obrigatoriamente, mas não no mais importante. No mais importante, se a Lise não concordar comigo, farei na mesma o que o dever me manda.

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"'Que solidão?', pergunto-lhe eu. 'A solidão que agora reina por todo o lado, especialmente no nosso século, e ainda vem longe o fim dela. Porque cada um, hoje em dia, deseja isolar cada vez mais a sua pessoa, quer experimentar em si mesmo a plenitude da vida e, no entanto, o resultado é que todos os seus esforços, em vez da plenitude da vida, acabam num suicídio absoluto, porque em vez da plenitude da definição da sua personalidade entra num isolamento total. Porque todos, no nosso século, se separam, cada qual se isolando na sua toca, cada qual se afastando do outro, escondendo-se e escondendo o que possui, acabando por rejeitar os outros e ser rejeitado pelos outros. Acumula a sua riqueza em solidão e pensa: que forte eu sou, que rico... e mal sabe, o louco, que quanto mais acumula mais mergulha na impotência suicida. Porque está habituado a contar apenas consigo e, como unidade, se separou do comum, habituou a sua alma e não acredita na ajuda dos outros, nas pessoas e na humanidade e apenas receia que o seu dinheiro e os seus direitos adquiridos se percam. Hoje, por todo o lado, a mente humana irónica começa a perder a consciência de que o verdadeiro sustento do indivíduo não consiste no seu esforço pessoal e solitário, mas um esforço em comunidade humana. É inevitável, porém, que chegue o fim deste terrível isolamento e que se compreenda, de uma vez por todas, como é antinatural esta separação uns dos outros. Será assim o espírito da época, e as pessoas espantar-se-ão por terem passado tanto tempo na escuridão, sem verem a luz. [...] Mas, até lá, é necessário guardar a bandeira e, de vez em quando, nem que seja como acto isolado, um homem sozinho deve dar o exemplo e tirar a alma do isolamento para a elevar até à façanha da convivência em amor fraterno, nem que seja na qualidade de maluquinho religioso. É necessário isso para que não morra a grande ideia...'"

.....

"[...] também tens culpa, porque podia trazer luz aos facínoras como único justo e não trouxeste. Se lhes tivesses trazido luz, também terias alumiado o caminho dos outros, e talvez aquele que cometeu o crime não o tivesse cometido à tua luz. E mesmo que alumies mas vejas que as pessoas não se salvam à tua luz, continua firme e não duvides da força da luz celeste; tem fé de que, se agora não se salvaram, salvar-se-ão depois. E se não se salvarem depois, salvar-se-ão os filhos deles, porque a tua luz não morrerá, mesmo com a tua morte. O justo morre, mas a luz dele sobrevive. Alguém se salva sempre depois da morte do salvador. [...] Nunca procures recompensa, porque já é grande a tua recompensa na terra: a tua alegria espiritual, que apenas o justo pode obter. Não temas superiores nem poderosos, mas sê sábio e sempre virtuoso. Conhece a medida, conheces os prazos, aprende isso. Quando ficares sozinho, reza. Toma gosto ao cair por terra e beijá-la. Beija a terra e ama, ama incansável, insaciavelmente, ama todos, ama tudo, procura no amor o êxtase e o enlevo. Molha a terra com as lágrimas da tua alegria e ama essas tuas lágrimas. Não tenhas vergonha deste êxtase, mas preza-o, porque é uma dádiva divina, uma grande dádiva, e não é dada a muitos, mas só aos eleitos.

(excertos de Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski)

quinta-feira, setembro 30, 2010

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"O que não consigo construir não consigo compreender."
(Richard Feynman)

terça-feira, setembro 28, 2010

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"Whatever satisfies the soul is truth."
(Walt Whitman)

segunda-feira, setembro 27, 2010

O fantástico inefável...

"Um filósofo contemporâneo de Lovecraft, o desconcertante Wittgenstein, disse que "o que não pode ser dito, melhor será calá-lo". Esta frase podia ser de certa forma o lema do truque estilístico mais peculiar do próprio Lovecraft. Para este, a fantasia desemboca sempre no inefável; as palavras esgotam-se muito antes de a imaginação pura ter concluído a sua fulgurante viagem. Mais ainda: as palavras são obstáculos, tropeços que dificultam ou estagnam a criação do realmente fantástico [...]" (Fernando Savater, Sobre Viver)

quinta-feira, setembro 09, 2010

Íntimo pessoal

"Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais uma estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. É este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião. O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. É o seu único caminho. O melhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entregar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém." (José de Almada Negreiros, Nome de Guerra)

To walk with lions...

"I stood next to Batian facing the rising sun. Then, for the first time in my presence, Batian began roaring to the dawn. My right hand was on his flank as his calls reverberated across the land. Time stopped and through his calls I felt part of everything... I was the Earth and the Earth was me. I belonged, and I was free." (Gareth Patterson, To Walk With Lions)

Wholeness...

"We live in a world that prides itself on its modernity, yet is hungry for wholeness, hungry for meaning. At the same time it is a world that marginalizes the very impulses that might fill the void. The pilgrimage to the divine, the openness that transcends ordinary experience, the very idea of feeling at one with the Universe, these are impulses which we tolerate at the fringes, where they are held at bay by our indifference. The irony is that, after excluding the mystical tradition from our cultural mainstream and claiming to find it irrelevant to our concerns, so many of us feel empy without it." (David Maybury-Lewis, Millenium: Tribal Wisdom and the Modern Work)

sexta-feira, setembro 03, 2010

Expostulation and Reply

"Why, William, on that old grey stone,
Thus for the length of half a day,
Why, William, sit you thus alone,
And dream your time away?

"Where are your books? - that light bequeathed
To Beings else forlorn and blind!
Up! up! and drink the spirit breathed
From dead men to their kind.

"You look round on your Mother Earth,
As if she for no purpose bore you;
As if you were her first-born birth,
And none had lived before you!"

One morning thus, by Esthwaite lake,
When life was sweet, I knew not why,
To me my good friend Matthew spake,
And thus I made reply:

"The eye--it cannot choose but see;
We cannot bid the ear be still;
Our bodies feel, where'er they be,
Against or with our will.

"Nor less I deem that there are Powers
Which of themselves our minds impress;
That we can feed this mind of ours
In a wise passiveness.

"Think you, 'mid all this mighty sum
Of things for ever speaking,
That nothing of itself will come,
But we must still be seeking?

"- Then ask not wherefore, here, alone,
Conversing as I may,
I sit upon this old grey stone,
And dream my time away,"

(William Wordsworth, 1798)

terça-feira, agosto 31, 2010

...

"I always thought death would come on the freeway in a few horrifying moments, so you'd have no time to sort it out. Having months and months to look at it, and think about it, and talk to people and hear what they have to say, it's a kind of blessing. It's certainly an opportunity to grow up and get a grip and sort it all out. Just being told by an unsmiling guy in a white coat that you're going to be dead in four months definitely turns on the lights... It makes life rich and poignant. When it first happened, and I got these diagnoses, I could see the light of eternity, a la William Blake, shining through every leaf. I mean, a bug walking across the ground moved me to tears."

...

‎"[...] When I think about dying, the thing that surprises me is how much of the future I regard as history, and how I don't want to miss it. I want to know how it all comes out. I haven't a lot of money riding on my vision of things, but I would like to know how the universe came to be, what's up with extraterrestrials, where biotech is going, where the Internet is going, about robot/man space-flight to the outer planets. Because the next century will be it. We are on the brink of a posthuman existence, or we are into the early phase of the posthuman existence. So what's it gonna look like? What's it gonna feel like? Hipparchus, in the second century B.C., was asked what he feared most about death, and he said, 'not being able to follow the latest discoveries in astronomy'. Well, that's precisely my position."


(Terence McKenna)

sexta-feira, agosto 27, 2010

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"Não há nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada mais torturante. [...] Existem três forças, as únicas forças na Terra capazes de conquistar e cativar para sempre as consciências destes rebeldes fracos, para felicidade deles. Estas forças são: o milagre, o mistério e a autoridade. Rejeitaste o primeiro, o segundo e a terceira [...] E poderias realmente supor, por um instante que fosse, que as pessoas também teriam forças para resistir a semelhante tentação? Terá a natureza humana sido assim criada, será ela capaz de rejeitar o milagre e, nos momentos terríveis da vida, nos mais terríveis momentos, nas questões da alma essenciais e torturantes, será a natureza humana capaz de seguir apenas a livre escolha do coração?" (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

quarta-feira, agosto 25, 2010

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"Se os sofrimentos das crianças foram acrescentados para perfazer a soma de sofrimentos necessária à compra da verdade, então afirmo desde já que toda a verdade não vale esse preço. Ao fim e ao cabo, o que eu quero é que a mãe não abrace o carrasco cujos cães despedaçaram o filho dela! Que ela não se atreva a perdoar-lhe! Se ela quiser, que perdoe por si, que lhe perdoe o seu incomensurável sofrimento materno; mas não tem o direito de perdoar o sofrimento do seu filho despedaçado, que não se atreva a perdoar ao carrasco, nem que a própria criança lhe perdoasse! Mas, se assim for, se não há o direito de perdoar, onde está então a harmonia? Haverá em todo o mundo uma criatura que possa e tenha o direito de perdoar? Eu não quero a harmonia, por amor à humanidade, não a quero. Quero antes ficar do lado dos sofrimentos não vingados. É melhor que eu fique com o meu sofrimento não vingado e com a minha indignação não saciada, mesmo que não tenha razão. Também estabeleceram um preço demasiado alto para a harmonia, está para além das nossas posses pagar tanto pela entrada. Por isso, apresso-me a devolver o meu bilhete de entrada. E, se for um homem honesto, tenho a obrigação de o devolver com a máxima antecedência. É o que estou a fazer. Não quero dizer que não admita Deus, não, Aliocha, apenas lhe devolvo, com todo o respeito, o bilhete.
- Isso é uma revolta - disse Aliocha, cabisbaixo, numa voz muito ténue.
- Revolta? Eu não queria ouvir-te dizer esta palavra - disse Ivan com um sentimento profundo. - É impoosível viver-se revoltado, e eu quero viver. Diz-me tu próprio e frontalmente, responde-me: imagina tu que estás a construir o edifício do destino humano, com o objectivo de, no fim, fazeres com que as pessoas sejam felizes, que recebam a paz e o sossego, mas que para isso seria necessário e inevitável martirizar apenas uma criança minúscula, aquela criancinha que batia com a mãozinha no peito, e que seria sobre as lágrimas não vingadas dela que tinhas de erguer o edifício; concordarias então, nessas condições, em seres o arquitecto? Diz, e não mintas!" (Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

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"De acordo com a minha terrena e miserável mente euclidiana, sei apenas que o sofrimento existe, que não existem culpados, que as coisas decorrem umas das outras directa e simplesmente, que tudo corre e se equilibra... mas trata-se apenas de um absurdo euclidiano, sei bem que é assim e não poderia concordar em viver de acordo com ele! Quero lá saber que não haja culpados e que eu tenha consciência disso, preciso de expiação, senão mato-me. E esta expiação não deve acontecer num infinito qualquer e sem se saber quando, mas aqui e agora, na Terra, para que eu a veja com os meus olhos. Eu tinha fé, e agora quero ver eu próprio e se, na altura de ver, já estiver morto, que me ressuscitem porque, se tudo acontecer sem mim será demasiado injusto. Será que sofri tanto para adubar comigo mesmo, com a minha perversidade e o meu sofrimento, uma futura harmonia para os outros? Quero ver com os meus próprios olhos o gamo a deitar-se ao lado do leão e o degolado a levantar-se e a abraçar o seu assassino. Quero cá estar quando todos, de repente, souberem porque foi tudo assim."
(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov)

terça-feira, agosto 17, 2010

Mais da "Carta ao futuro"...

"Os limites da nossa condição... Como é espantosa a sua descoberta! Ela é paralela da morte daquilo que descobrimos: só depois da falência das nossas invenções nos descobrimos a nós, os inventores. Jamais o homem terá atingido os seus limites, porque jamais terá deixado de ser tudo aquilo em que existia. O fascinante milagre que é o sabermo-nos vivos, o conhecermos esta incrível iluminação de nós a nós próprios, de nós ao universo, só agora nos perturba, só agora é alucinante, porque só agora é gratuita. Vivemos em nós; a dimensão da infinitude que nos habita, este poder incrível de saber-nos, de sermos uma pessoa, é em nós que se limita e torna espessamente absurdo o desafio que nos lança a contingência e a morte. A experiência de nós próprios, do inverosímil milagre do que somos, é extraordinariamente difícil, meu amigo, e de si mesmo miraculosa. Habita-nos um poder brutal de uma evidência fechada, de uma irredutível necessidade que nos vem deste sentirmo-nos um indivíduo, uma inteireza sem traço de união, um absoluto de presença que recusa a contingência, a ligação com tudo o que nos rodeia, a dependência da fatalidade. E todavia sabemos que a fatalidade existe. Como é possível? Como é possível? Vejo-me, sinto-me, reconheço-me um mundo fechado, indissolúvel, olho as minhas mãos, sei-me, penso-me, reconheço-me uma multidão de ideias, de sensações que me foram habitando, sinto-me eu, um todo, indivisível e irredutível, um ser instalado numa inefável eternidade necessária, um ser com um quê de único, aquele que sou para mim próprio, aquele que sou para os outros como os outros o são para mim no seu tom de voz, no seu modo de gesticularem, na pessoa tão única, tão nítida, tão fascinante que me causa terror. Ah, a terrível dificuldade de apanhar na palavra esta evidência tão flagrante, esta realidade tão vivaz e tão fluida - esta realidade que dura e nos persegue e está ao pé de nós depois de alguém nos morrer... Lembro-me de contar algures a aparição desta certeza na vulgar experiência de nos vermos a um espelho: diante de nós está uma pessoa que nos fita, que é um ser vivo, totalizado, que vê, que pensa, que nos olha, nos olha, nos causa pânico, nos gela de pavor até a uma obscuridade de raízes. Como é ridículo este esforço para captar na palavra este instante infinitesimal em que estou apanhando, num clarão, a fulgurante verdade do que sou! E todavia, só em face dessa alucinante evidência é possível divisar os limites desde onde poderemos sonhar a construção do nosso reino sobre a terra. E é porque é difícil ver, ter a aparição de nós a nós próprios, que os homens se podem construir uma redenção com uma aparência de segurança que os ilude e os escarnece. Para o homem vulgar (para cada um de nós também, quase sempre) a vida resolve-se numa presença em, num ser o mundo que existe como por si mesmo, sem pensar-se que é através de nós, sem um regresso à vertigem de estarmos sendo nós, daquilo que somos. E porque a vida é assim, se resolve assim nessa contrafacção de eternidade, nessa fácil imitação de uma presença divina, nesse inconsciente e ilusório modo de ser-se quotidianamente um deus - por isso, a morte não tem ainda senão um significado de vida: uma presença de nós para lá dela, essa presença que nos inventamos agora, enquanto vivos, como memória, nela, da vida, como é em nós memória, agora, tudo aquilo que já perdemos - a infância, a juventude. Mas a morte é algo de mais incrivelmente absurdo, porque é o nada inimaginável, a impensável destruição do absoluto que conhecemos na irredutível e necessária pessoa que somos. Pobres palavras vãs: um 'nada' imaginamo-lo sempre como algo que é... Mas o nada é a desaparição de nós a nós próprios, a anulação desta evidência que é a pessoa que está em nós, o puro vazio deste quid único, desta realidade que há em nós e nos assusta, porque é terrivelmente viva e verdadeira. [...]

O que há redimir é a adequação deste milagre brutal de nos sabermos uma evidência iluminada, de nos sentirmos este ser que é vivo, se reconhece único no corpo que é ele, na lúcida realidade que o preenche, o identifica nas mãos que prendem, na boca que mastiga, nos pés que firmam, de nos descobrirmos como uma entidade plena, indispensável, porque ela é de si mesma um mundo único, porque tudo existe através dela e é impossível que esse tudo deixe de existir, porque ela irrompe de nós como a pura manifestação de ser, e o 'ser' é a única realidade pensável - o que há a redimir é a adequação desta fantástica evidência que nos cega e a certeza de que ela está prometida à morte, de que o seu destino é impossível e absoluta certeza do não-ser, da pura ausência, da totalidade nula, da pura irrealidade. Colaborar com a vida, aceitar a validade de uma norma, forjar uma regra para a distribuição da nossa acção e interesse - sim. Mas é impossível, antes disso, desviarmos os nossos olhos da fascinação da vertigem, e vermos, vermos bem, de que fundas raíses gostaríamos de entender tudo quanto realizássemos. É uma tentativa absurda, meu amigo, toda a gente no-lo diz - toda a gente que desconhece essa força que nos fascina. Mas eu sei que só se é homem, plenamente, quando se sabe."A escala de tudo quanto povoa a terra estabelece-se-nos aí, no saber. A ilusão de plenitude, a ficção de uma quotidiana divindade, essa que se define por uma certa instalação na permanência, forja-se apenas de uma inconsciência animal. Somos homens, não somos deuses nem pedras. Se a grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber, conquistemo-la até onde, nos limites das evidências primeiras, ela se nos anuncia. E se o 'absurdo' é a face desses limites, assumamo-la como quem não rejeita nada do que é ainda nós próprios. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusá-los, como o não está em reconhecer uma doença, mas em não fitá-la de frente. Só se é justo, corajoso, pela assunção consciente do que nos ameaça e por isso o bruto não é heróico. O 'para quê' que nos antepõem todos os homens sensatos implica um programa utilitário de todo o instinto prático e animal. Mas nós, contra tudo o que povoa a terra, temos o fulminante poder de sabermos quem somos. É aí que cabe a nossa condição, é aí que cabe a nossa interrogação, fascinante e sem limite." (Vergílio Ferreira, Carta ao futuro)

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"Eis que, porém, depois de todas as negações, depois da falência de todas as formas de uma pacificação, o homem descobre enfim que está só. Todos os brinquedos da nossa infância milenária jazem por terra com as tripas mecânicas de fora, e depois do prazer com que os desventrámos, olhamos, aterrados, por não termos mais brinquedos para desventrar... As horas do nosso abandono ressoam no céu deserto onde só o silêncio responde ao nosso pobre pavor. É pois certo que nada mais há do que esta infinitude limitada, do que este céu recurvo onde um anseio, que projectemos, a si regressa num círculo, como um raio de luz. É pois certo que o nosso reino se descobriu enfim nos limites de um náufrago de mãos vazias e um tugúrio por construir desde o nada. Na terra desabitada, no universo desabitado, o último sol de ocaso prolonga a nossa sombra de estátuas finais que meditam. Um ciclo novo de vida se inicia agora desde o nada absoluto, onde, do mundo antigo, permanece apenas o rasto do espanto, do alarme que não finda. Porque se há uma continuidade na conquista, se os muros que sonhamos erguer para a nossa nova morada não são feitos com as pedras enegrecidas pela pobre candeia que outrora nos iluminou, se às ilusões seculares as reconhecermos como tais e esperamos que, a virem outras, elas sejam as sombras de um sol novo – é absolutamente certo que a surpresa da morte dos deuses não é o aviso da sua ressurreição, como a dor de um pai que nos morreu não é o sinal do seu regresso... Assim, que ninguém se espante do nosso espanto, nem que ninguém sonhe escravizar a nossa melancolia no seu rebanho de escravos: sobre o campo dos mortos, as searas não dão pão para os mortos, mas para os vivos. Sabemos que o céu estava vazio ao terminarmos a sua escalada. Sabemo-lo porque vimos não da luz que vem das coisas, mas da força iluminadora que irrompe de nós próprios e define a nossa presença. Que ninguém nos demonstre o nosso erro nem a nossa verdade: mais forte que toda a demonstração é a evidência feita carne e ossos e sangue e nervos, é esta plenitude sem margem de sermos. A luz que iluminou a presença dos outros, dos que nos precederam, eles a consumiram para si próprios, nesse seu modo de saberem que estavam vivos. A luz que ilumina o estarmos sendo é intransmissível como o sentirmo-nos a viver. Que ninguém nos demonstre a nossa verdade ou erro: não se demonstra o ser pedra uma pedra, o ser estrela uma estrela. Mas precisamente por isso, que ninguém nos demonstre que é incoerente e sobretudo insincero, reconhecer a evidência da morte dos deuses e estremecer na angústia de um mundo despovoado, de um universo reduzido à incrível escala humana. Como se a irredutível verdade da morte de alguém, que conhecemos, exigisse a coerência de uns olhos enxutos: mais forte que a certeza da inutilidade da dor é a absoluta presença da dor. Na ilha deserta, a aflição do abandono não reconduz o mundo que se perdeu: é o irremediável sinal de um recomeço, é o anúncio da vida de todo o homem para recriar o mundo. (Vergílio Ferreira, Carta ao futuro)

sexta-feira, agosto 13, 2010

"Adeus eterno!"

"[...] Escutei estas palavras repetidas: 'Adeus eterno!' E ainda várias vezes: "Adeus eterno!"
E então eu despertava na minha agitação, gritando: "Não quero mais dormir!"
Hoje cheguei a temer a aproximação do sonho, se me deve trazer visões tão dolorosas, cheias de uma vida tão intensa, como as que me perseguiam o cérebro cheio de fantasmas. [...]
Considerando que minha vida era mais necessária a outros do que a mim, cheguei a inquietar-me realmente, e detive-me a tempo, mas com um esforço que está a acima de qualquer descrição. Fizesse o que fizesse, parecia como se diz em termos militares, "a morte me saía à frente." Renunciar ao ópio não era de modo algum libertar-me das angústias que eram "mortais" na correcta acepção do termo; mas, por outro lado, morrer em consequência de espantos nervosos, morrer de febre cerebral ou de loucura, eis as alternativas que se me antojavam. Felizmente, ainda me restava bastante firmeza de carácter para escolher deliberadamente o partido que me imporia mais sofrimentos, mas que me mostrava ao longe a esperança de me salvar definitivamente.
Esta possibilidade realizou-se; pude escapar ao ópio. O desfecho desta nova crise nas minhas experiências achas-se descrito com bastante exactidão nas linhas seguintes, que meus amigos leitores encontraram na primeira edição destas Confissões. Se estas linhas ali se encontram, é que a crise de que falam não foi mais que um esforço provisório que aplainou o caminho para outras crises mais suportáveis, a que meu sistema constitucional se submeteu gradualmente. [...]
Lord Bacon supõe que é tão doloroso nascer como morrer. Parece provável: durante todo o tempo que consagrei ao diminuir da minha ração de ópio, sofri os tormentos de um homem que passa de um modo de existência a outro e que sente, ao mesmo tempo, ou alternadamente, as dores do nascimento e da morte. O final não foi a morte, e sim uma espécie de regeneração física; assim posso acrescentar que sempre, depois e de vez em quando, fui experimentando uma ressurreição juvenil das minhas faculdades.
Resta-me, todavia, uma herança o meu antigo estado: os meus sonos não são tranquilos. A mortal agitação e o transtorno da tempestade não se apaziguaram de todo; as legiões que acampavam no meu sonho puseram-se em marcha, mas não desapareceram inteiramente. O meu repouso é ainda incompleto, agitado; está como as portas do Paraíso, tal como as viram ao voltar-se os nossos primeiros pais; ainda está como no espantoso verso de Milton:

'Cheio de terríveis rostos e braços ameaçadores'
."

(Thomas de Quincey, Confissões de um Comedor de Ópio")

[Este excerto é retirado de uma edição brasileira de Confessions of an English Opium-Eater. Recomendo, no entanto, a leitura do texto na sua língua original...]

quinta-feira, agosto 05, 2010

"Tu és a terra..."

Tu és a terra em que pouso.
Macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

(Jorge de Sena, Sobre esta praia...)

quarta-feira, agosto 04, 2010

...

Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.

A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
Ah déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.

De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia.

Pasan huyendo los pájaros.
El viento. El viento.
Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres.
El temporal arremolina hojas oscuras
y suelta todas las barcas que anoche amarraron al cielo.

Tú estás aquí. Ah tú no huyes.
Tú me responderás hasta el último grito.
Ovíllate a mi lado como si tuvieras miedo.
Sin embargo alguna vez corrió una sombra extraña por tus ojos.

Ahora, ahora también, pequeña, me traes madreselvas,
y tienes hasta los senos perfumados.
Mientras el viento triste galopa matando mariposas
yo te amo, y mi alegría muerde tu boca de ciruela.

Cuanto te habrá dolido acostumbrarte a mí,
a mi alma sola y salvaje, a mi nombre que todos ahuyentan.
Hemos visto arder tantas veces el lucero besándonos los ojos
y sobre nuestras cabezas destorcerse los crepúsculos en abanicos girantes.

Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueña del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.


(Pablo Neruda)

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade, O Corpo)

terça-feira, agosto 03, 2010

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"Eu ainda não me rendi a quantas ameaças e ataques tenho encontrado na vida. Eu não aceito a vida; eu não fujo medroso diante da vida. E a prova está nos esforços com que tento desprender-me. É que eu sinto ainda a mesma coragem, a mesma força, a mesma fé de outrora. Simplesmente sinto-as mais serenas, mais disciplinadas, mais reflectidas. Poder-se-ia acusar uma semente de não germinar, só porque a semearam sobre uma rocha estéril? Creio que não. Não, amigo, eu não falhei ainda. Eu não caí ainda." (Manuel Laranjeira, Cartas)

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"Eu creio que não faço senão morrer a vida, tanto esta minha existência se parece com viver a morte.
Não é porque eu não sinta dentro do meu ser explodir, como um ansioso fluxo da vida, um desejo de viver também integralmente a minha vida. Mas é um fluxo momentâneo apenas. Logo os braços me caiem na inércia de quem morre e o meu olhar perde-se nas planuras longínquas dum brumoso país de tédio, de desânimo, de dúvida.
Sinto-me semelhante a uma árvore agonizante, seca, despida no meio de uma floresta viva. Tão hirto, tão seco, tão sem ilusões, me sinto no meio de tudo isto a esbracejar de saúde, de alegria de viver." (Manuel Laranjeira, Cartas)

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"Sinto a desolação horrível, trágica de quem já não pode iludir-se com nada e encontra em quanto existe a infinita miséria. E sinto a verdade daquelas palavras que às vezes digo como uma síntese do meu estado de espírito: sofro da horrível desgraça do Homem que olha para a vida e sente que já não pode ser enganado..." (Manuel Laranjeira, Diário Íntimo)

"A vida hoje foi para mim, como em tantos outros dias, igual, parda, ordinária... Nestas horas assim gris, sinto a sensação penosa de que a vida se me está gastando, esgotando, imbecilmente... sem eu viver. E sinto esta ideia de pesar que hei-de morrer sem ter sabido viver a vida... Afinal o mal da nossa vida é não saber vivê-la... ou não poder." (ibid)

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"Afinal, amigo, eu também nasci místico; e, quando se nasce místico, o remédio é satisfazer a sede de ideal. Nos místicos da vida o ideal chama-se virtude; nos místicos da arte chama-se beleza. Virtude e beleza, na essência, são a mesma coisa. A virtude é a ânsia de compor a vida como uma obra de arte; a beleza a ânsia de compor uma obra de arte como a vida." (Manuel Laranjeira, Cartas)

segunda-feira, agosto 02, 2010

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"Tem razão: a paz - sobretudo a paz interior - é uma mentira para nós... e creio até que para todos os homens. De resto, se os homens soubessem que, quando a paz entra no espírito, a morte não está longe, talvez a não desejassem tanto. A vida é dolorosa e a verdade é amarga. Mas que importa? Façamos como os místicos, que, de tanto abraçarem o sofrimento, chegaram ao culto da dor. Eu por mim já me habituei de tal modo ao sabor venenoso da verdade, que ela para mim hoje constitui um tóxico indispensável. Quanto à paz... eu até me envergonhava de ser mais cobarde do que aquele meu lendário antepassado que a perdeu e perdeu o paraíso a troco daquele fruto venenoso e bom."
(Manuel Laranjeira, Cartas)

sexta-feira, julho 30, 2010

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"Nunca percorri estrada que não fosse a de egoísmo, bem andada e com cinismo, mas cheguei agora ao fim, não amo os outros por eles mas por mim." (Agostinho da Silva)

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"Há sempre alguma loucura no amor, mas há também sempre alguma razão na loucura." (Friedrich Nietzsche)

Amanhecer em Estremoz

Uma a uma a noite abria
à luz matinal das rolas
as minúsculas portas da alegria

(Eugénio de Andrade, Alentejo)

quarta-feira, julho 28, 2010

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"O amor é a dialéctica do ódio, o seu contrário especular. O amor é, com intensidades várias, a maravilha imperativa do irracional. É inegociável, tal como a (condenada) demanda de Deus entre os Seus enfermos. Tremer, no mais fundo âmago do nosso espírito, nervos e ossos, à vista, à voz, ao mais pequeno to que do ser amado; imaginar, maquinar, mentir despudoradamente para conseguir alcançar, estar perto do homem ou mulher amados; transformar a nossa existência (pessoal, pública, psicológica e material) num instante imprevisível por via e consequência do amor; suportar dor e depressões inomináveis devido à ausência do amado ou à debilitação do amor; identificar o divino com a emanação do amor, como o faz o platonismo, que é o mesmo que dizer o modelo ocidental da transcendência - é desfrutar do sacramento mais inexplicável e banal da vida humana. É, dentro do potencial de cada um, tocar a maturidade do espírito. Fazer equivaler este universo da experiência ao libidinoso, como o faz Freud, explicá-lo em termos de vantagens biogenéticas e procriadoras, são reduções quase desprezíveis. O amor pode ser o elo involuntário, culminando na autodestruição, entre indivíduos nitidamente inadequados um para o outro. A sexualidade pode ser incidental, transitória ou completamente ausente. O mais feio, mais desgraçado, mais malvado entre nós pode ser o objecto de um Eros desinteressado e apaixonado. O desejo de morrer pelo amado ou pela amiga - l'amie, como diz o francês de modo tão exacto e luminoso -, as lúcidas insanidades do ciúme, são contraprodutivas no termos de qualquer racionalização biológica (darwiniana) ou social. A famosa máxima de Pascal segundo a qual o coração tem razões que a razão desconhece acaba por privilegiar a racionalidade. Não são as 'razões' que enchem o coração. São necessidades de uma origem completamente diferente. Para além da razão, para além do bem e do mal, para além da sexualidade que, mesmo no auge do êxtase, é um acto perfeitamente menor e efémero. Esperei uma noite inteira debaixo de chuva torrencial para ter um vislumbre da amada a dobrar a esquina. Se calhar nem sequer era ela. Deus tenha piedade daqueles que nunca conheceram a alucinação de luz que preenche as trevas durante uma dessas vigílias." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

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"Eu procuro o mais possível ser como o gato, o gato bem manso, de maneira que a vida venha, me pegue pelo cachaço e me leve onde isso for conveniente para a vida." (Agostinho da Silva)

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"Voluntary dependence is the wonderful form of existence, and how could that be possible without love?" (Goethe)

terça-feira, julho 27, 2010

Há Momentos

Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

(Clarice Lispector)

O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

(Mário Quintana)

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Por vezes, em breves instantes, sinto-me tocar o sentido da vida, quando sinto que a vida não existe para ter sentido, mas antes para ser vivida...

quinta-feira, julho 22, 2010

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"Todos trazemos dentro de nós um mundo de coisas: cada qual tem o seu mundo de coisas! E como podemos entender-nos, senhor, se, nas palavras que digo, ponho o sentido e o valor das coisas como são dentro de mim, enquanto quem as ouve lhes dá, inevitavelmente, o sentido e o valor que elas têm para si, no mundo que traz consigo?" (Luigi Pirandello, Seis personagens à procura de um autor)

quarta-feira, julho 21, 2010

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"Despi-me.
Mas como não tinha sono, não consegui adormecer. Fiquei deitado um bocado com os olhos fixos no escuro, naquela espessa massa escura que não tinha fundo nem cujas dimensões era possível apreender. O meu entendimento não conseguia entender. Era uma escuridão sem igual e eu sentia a sua presença exercer pressão sobre mim. Fechei os olhos, comecei a cantarolar meio alto só para mim e atirei-me uma vez e outra para cima da tarimba para me distrair, mas não me valeu de nada. A escuridão apoderou-se dos meus pensamentos e não me deixou em paz um só instante. Imagine-se que eu próprio me dissolvia na escuridão, que me fundia com ela! Ergui-me na cama e agitei os braços.
O meu estado nervoso dominava-me então por completo, por mais que tentasse contrariá-lo, não ajudava. Ali estava eu sentado, presa das mais estranhas fantasias, a mandar-me calar a mim próprio, a cantarolar canções de embalar, a transpirar pelo esforço de tentar encontrar tranquilidade. Fixei os olhos na escuridão; nunca na vida havia visto uma escuridão assim. Não havia quaisquer dúvidas de que ali me encontrava totalmente imerso numa espécie de escuridão especial, um elemento desesperado ao qual jamais alguém dera atenção antes. Ocupavam-me os pensamentos mais ridículos e tudo me fazia medo. [...]
Meu Deus, como estava escuro! E voltei a pensar no porto, nos navios, nos monstros negros que estavam ao largo, à minha espera. Queriam sugar-me para si, manter-me preso no seu seio e levar-me a navegar por mares e terras, através de reinos negros que nunca ninguém vira. Tive a sensação de encontrar-me a bordo, ser atraído para o mar, andar a pairar entre as nuvens, e afundar-me, afundar-me... Soltei um grito de angústia rouco e segurei-me com força à tarimba. Que viagem mais perigosa tinha feito, a zunir pelo espaço como uma pequena bola. Como me senti salvo, quando bati com a mão contra a tarimba dura! Morrer é assim, disse a mim próprio, agora vais morrer! Fiquei curtos instantes a pensar que ia morrer. Então levantei-me da tarimba e perguntei severamente:
- Quem disse que eu ia morrer? Se fui eu que inventei a palavra, estão estou no meu pleno direito de decidir o que ela há-de significar..."

(Knut Hamsun, Fome)

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‎"17. And I gave my heart to getting knowledge of wisdom, and of the ways of the foolish. And I saw that this again was desire of wind. 18. Because in much wisdom is much grief, and incrase of knowledge is increase of sorrow." (Ecclesiastes, put into basic english by Ma Than É, Burma)

sexta-feira, julho 16, 2010

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"Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes." (Walt Whitman)

quinta-feira, julho 15, 2010

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"Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão." (Henry David Thoreau)

quarta-feira, julho 14, 2010

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"Uma mulher espera-me, tem tudo, não falta nada. Mas faltaria tudo se faltasse o sexo."
(Walt Whitman, Folhas da Erva)

segunda-feira, julho 12, 2010

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"The only impeccable writers are those that never wrote." (Hazlitt)

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"Desde esta hora eu me proclamo liberto de limites e linhas imaginárias,
vou para onde quero, meu próprio dono, total e absoluto,
prestando ouvidos, reparando bem no que os outros dizem,
pausando e inquirindo, recebendo, contemplando,
e brandamente, mas com vontade inabalável, desfazendo os laços que tentam prender-me. [...]" (Walt Whitman, Canção da Estrada Larga)

sexta-feira, julho 09, 2010

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"If I got rid of my demons, I’d lose my angels."
(Tenessee Williams, Conversations with Tenessee Williams)

terça-feira, julho 06, 2010

Escravidão...

"Sem actividade criadora não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e a vida nas horas de guerra.

A escravidão é feita de descanso e de tristeza."

(Teixeira de Pascoaes, Arte de ser português)

segunda-feira, julho 05, 2010

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ÍAMOS por dentro da aurora...
Tínhamos fechado os olhos
quando o dia despontava
Pisámos horizontes
onde não havia túmulos.
Nada existia
para além das nossas pálpebras.
Apenas, dentro de nós,
a aurora...
Arranquemos as pupilas, amada,
e venceremos a noite.
A vida será
o que nós formos.

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Queria dizer-te a palavra.
Não a lês dentro de mim?
Ficará entre nós
como um eterno silêncio?
Adivinha-a e fala.
Se eu te dissesse o fogo
que arde dentro de mim
a alma fugir-me-ia.

(Félix Cucurull, Vida Terrena)

Archote

(A muitos, talvez também a mim próprio.)

INDENDEIA-TE,
faz-te chama.
Sê archote,
ilumina.
Apenas fogo.
Fogueira
erguida na noite.
Será a dor duns instantes
mais breve
que o sofrimento
de quando o cérebro,
sozinho,
arde a pouco e pouco,
dia após dia,
a todas as horas.
Faz da tuar carne labareda,
umsa fogueira
da qual se desprenda,
como um boneco invisível,
o teu pensamento.

(Félix Cucurull, Vida Terrena)

Povo

Queria estar em ti
despido de todas
as cores berrantes
que tornam grotescos e falsos
os gestos dos homens.

Queria chegar a ti
liberto de mitos e de miragens,
apenas com a pureza
do anseio de nunca mais esconder
a cobardia
e a inata mesquinhez
que me atraiçoa até quando digo que amo.

Queria estar contigo
inteiramente nu, como um abeto
que recebe a neve nos ramos
e na seiva o frio
do desengano que te punge
e te faz receoso e miserável.

Queria, povo,
fundir-me contigo
neste inverno que fura há tanto.

Ser um abeto entre abetos
de raízes entreligadas
e em nós abrir-se um incêndio
e tornar-se grito de combate
a força estiolada e dispersa
que nos resta.

(Félix Cucurull, Vida Terrena)

Revolução sem terror?

"Regra geral: nunca há uma revolução social sem terror. Toda a revolução desta natureza não é e não pode ser, no princípio, senão uma revolta; só o tempo e o sucesso conseguem enobrecê-la, torná-la legítima; mas, mais uma vez, não se pode lá chegar senão pelo terror. Como dizer a todos aqueles que preenchem todas as administrações, possuem todos os cargos, gozam de todam as fortunas: ide-vos. É claro que se defenderiam: é preciso, pois, enchê-los de terror, pô-los em fuga, e foi o que fizeram a 'lanterna'(1) e as execuções populares."
(Napoleão Bonaparte, Como fazer a guerra)

(1) Forca improvisada pela populaça com as cordas das lanternas, durante a revolução.

quarta-feira, junho 30, 2010

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

(António Gedeão)

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"No doubt alcohol, tobacco, and so forth, are things that a saint must avoid, but sainthood is also a thing that human beings must avoid... Many people genuinely do not wish to be saints, and it is probable that some who achieve or aspire to sainthood have never felt much temptation to be human beings."
(Reflections on Gandhi by George Orwell, 1949)

quinta-feira, junho 24, 2010

Por favor, alguém conte à minha mãe que me portei mal...

A reportagem de capa da edição de hoje da Visão é um atentado à inteligência. Não conheço o movimento descrito, nem os fundamentos do mesmo, nem os podres que, obviamente, estarão presentes (como estarão em qualquer associação ou grupo de pessoas) mas as opções editoriais da revista, e o preconceito e o medo com que o senhor jornalista encarou a missão, roçam o inacreditável. Sexo? Orgias? Mas onde? E quando? Parece-me a mim que o senhor jornalista tem um enorme receio de que o chão lhe falte, sendo, por isso, incapaz de compreender aquilo que foge à matriz do pensamento que, por clara limitação, adoptou como sua. O resultado (com a ajuda da venenosa capa, possivelmente da responsabilidade de uma direcção desesperadamente à procura de vendas) é inevitável: a diabolização de algo que, claramente, o senhor não conseguiu entender (ou viver), e a construção de um trabalho opaco, tendencioso e sensacionalista. Não pretendo alongar-me sobre este assunto, mas confesso que o final do texto me fez soltar uma valente gargalhada, imaginando o desconforto que o dito senhor sentiu quando, surpresa das surpresas, alguém lhe tocava. Ainda por cima, parece que havia mãos de homem à mistura... Ou muito me engano, ou o senhor não conseguiu lidar com o prazer e com a excitação que sentiu ao viver essa sua, aparente, transgressão, sentindo por isso, inclusivamente, a necessidade de evocar a autoridade materna. "Não contem isto à minha mãe", assim termina o texto. Como quem, verdadeiramente, diz, "Alguém lhe conte, por favor, que eu preciso que ela me diga que eu me portei mal. Se não..."

Umas horas depois, aqui estou, porque senti vontade de vir acrescentar mais isto...

Não tenho nada contra o autor da reportagem, nem sequer o conheço. Acredito que possa ser um bom jornalista, e, obviamente, uma excelente pessoa. Não ponho isso em causa. O que ponho em causa são as suas competências para a realização de um trabalho deste cariz, bem como as várias opções editoriais da revista Visão no tratamento do mesmo...

Com fundamento ou não (não é isso que me interessa agora!), o que esta reportagem fez foi lembrar-me uma das características que me mais me desilude no jornalismo (e em muitos daqueles que o fazem): a forma como rapidamente condena e diaboliza aquilo que, de alguma forma, por medo ou incompreensão, sente que se afasta da norma que esta nossa sociedade (muito com a sua ajuda!) luta por preservar. Nada de novo, mas, felizmente, continua a fazer-me alergia...

Verdade que não tenho especial simpatia (e, nalguns casos, nenhuma mesmo!) por movimentos, seitas e igrejas que se alimentam obscenamente da espiritualidade ou do vazio daqueles que congregam, nem conheço os meandros da referida "seita do sexo", à excepção do que li no artigo...

Mas o modo como este trabalho foi apresentado obriga-me a afirmar, mais uma vez, que não posso tolerar a forma como, sistematicamente, o jornalismo se demite de tentar compreender aqueles que (por vezes, muito à frente do seu tempo) vão procurando respostas alternativas para as questões fundamentais da vida; nem consigo aceitar a rapidez com que se demite de dar a conhecer algumas das simples (mas, por vezes, tão importantes), descobertas, grandes dúvidas ou pequenas certezas com que esses filósofos, visionários, vagabundos ou aprendizes de feiticeiro se vão cruzando nas suas viagens marginais...

Alguém genuinamente justo acredita ainda que a solução se encontra na manutenção e na defesa do sistema que hoje existe? E quem, se não quem parte à procura de algo diferente, nos poderá dar a conhecer um mundo novo?

quarta-feira, junho 23, 2010

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"A moda. É uma atoarda lançada por um tolo, que faz fortuna de muitos tolos, com a vaidade de outros mais tolos ainda." (Albino Forjaz Sampaio, Mais além da Morte e do Amor)

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"Falar é bom, melhor inda é calar-se", diz Filinto. É por isso que, quando ela se cala, eu scismo que me está dizendo coisas que me não saberia dizer se falasse." (Mais além da Morte e do Amor, Albino Forjaz de Sampaio)

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"Justo motivo de orgulho nosso é ainda a mulher portuguesa. Nenhuma há no mundo que a exceda em sentimento, em ternura, em dedicação. Nenhuma a ultrapassa em meiguice, na doçura, na piedade. É que a mulher da nossa terra é a mais feminina das mulheres da Europa. Ela é a filha estremecida, a esposa dedicada, a mãe amante, a companheira fiel e a avó indulgente e devotada. Para o lar e para a vida jamais se pode topar melhor. Com o seu coração ela faz o sacrifício da sua vida e não há companheira que lhe possa ofuscar as suas qualidades.
Dizem que é ciumenta. Defende o seu amor com o escarniçamento com que a loba defende os filhos. Mas acompanha o esposo nas lutas da sorte, nas vicissitudes da vida e até no exílio. [...]
Açodadas labutam e mourejam, à torreira do sol nos campos, na penumbra dos ateliers, nas fábricas ou no remanso do lar, nada mais querendo para ser felizes do que um pouco da terra amiga para viver, e um nadinha de coração para morar." (A Mulher Portuguesa, Porque me orgulho de ser português, Albino Forjaz de Sampaio)

quinta-feira, junho 17, 2010

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"De acordo com a hipótese de Gaia, somos parte de um todo maior. O nosso destino não está apenas dependente do que possamos fazer por nós próprios, mas também pelo que possamos fazer por Gaia como um todo. Se a colocarmos em perigo, ela, no interesse de um bem maior - a própria vida - excluir-nos-á." (Vaclav Havel, citado por James Lovelock, em Gaia, um novo olhar sobre a Vida na Terra)

quarta-feira, junho 16, 2010

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"Quando chegou o dia em que fui obrigado a pronunciar-me sobre a profissão que escolhia, porque meu pai mo perguntava, respondi:
- Quero ser vendedor de sementes!
Meu pai disse que vendedor de sementes não era um ofício: ofício era ser carpinteiro, mecânico ou padeiro. Mas, como eu insistisse, meu pai acrescentou:
- Vendedor de sementes é um ofício de vagabundo!
Apeteceu-me responder-lhe que não conseguia submeter-me à ideia de passar o dia fechado num laboratório ou numa oficina. Mas tive medo das pesadas mãos de operário de meu pai, que me acertavam entre o pescoço e o cerebelo. Ele começava já a ficar zangado e repreendia minha mãe por me ter dado tão má educação.
- Este filho tem alma de vagabundo - dizia-lhe. - Não conseguiremos dele nada de bom!
Por isso calei as minhas razões. [...]

Eu era um rapaz de doze anos e gostaria de lhe ter dito:
- Sabes, papá, há sol quando estás na oficina. A água do rio é verde, os tremoços dourados, e as sementes de Misirizzi fazem faísca. Eu não posso passar sem isto, sem a minha liberdade.
Mas foi meu pai, afinal, quem me disse:
- Deves aprender um ofício. Trabalhar a sério distrai. Aprende-se muito mais do que um ofício: qualquer coisa de diferente, de forte. Um vendedor de sementes, quando fores grande, vai parecer-te também a ti um vagabundo, um homem que não teve a coragem do seu verdadeiro nome.
Pronto, papá, eu sou grande e nem mesmo hoje os poetas têm um nome."
(Vasco Pratolini, Ofício de Vagabundo)

segunda-feira, junho 14, 2010

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"Depois, percebera, também, que ela [essa liberdade] poderia, com maior propriedade, chamar-se solidão e tédio, e que me condenava a uma pena terrível: a da companhia de mim mesmo." (Luigi Pirandello, O Falecido Mattia Pascal)

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"Depois, percebera, também, que ela [essa liberdade] poderia, com maior propriedade, chamar-se solidão e tédio, e que me condenava a uma pena terrível: a da companhia de mim mesmo."
(Luigi Pirandello, O Falecido Mattia Pascal)

segunda-feira, junho 07, 2010

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"É evidente que nenhum homem tem a obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem, É minha obrigação não o pisar, pois estou a impedi-lo de realizar as suas contemplações."
(Henry David Thoreau, A Desobediência Civil)

Trumbo

"At rare intervals, there appears among us a person whose virtues are so manifest to all, who has such a capacity for relating to every sort of human being, who so subordinates his own ego drive to the concerns of others, who lives his whole life in such harmony with the surrounding community that he is revered and lov...ed by everyone with whom he comes in contact. Such a man Dalton Trumbo was not..."

(Dalton Trumbo died from a heart attack in California on September 10, 1976. At his memorial service, Ring Lardner Jr., his close friend and fellow Hollywood 10 member, delivered an amusing eulogy.)

[Revi Trumbo. Obrigatório...]

quinta-feira, maio 27, 2010

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"[...]
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
[...]"

(Daniel Filipe, A Invenção do Amor)

quarta-feira, maio 26, 2010

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"Há uma tela de Rochegrosse intitulada Angoisse humaine. É um quadro que representa a Vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto. Homens de casaca tão correctos como se fossem para um baile. Há mulheres decotadas vestidas em rigor. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome.
Aquele monte é a Ambição de subir, de que fala Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, como se após, viessem também correndo numa perseguição fantástica, as ondas dum novo dilúvio.
Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga duma derrota.
Todas aquelas cabeças têm o rictus dum Tântalo supremo. São gastas, cansadas, lívidas. Os rostos são pálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura e de pesadelo; os olhos brilhantes, emoldurados no bistre das insónias e dos tormentos, as mão crispadas, rapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São ferozes e são crúéis.
A tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim enérica, sinistra, brutal. Não há trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o.
Há um homem de peitilho engomado e cabelo colado sobre as frontes que, sentado, morto, segura não mão inerte e suicida, a coronha dum revólver.
Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiu o último tapume, frágil afinal como uma convenção, e continua avançando sempre.
Toda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só em subir. A certa altura a Morte fixa-as com suas pupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, afundam-se lá em baixo, onde as espera uma cova aberta, algumas sem terem chegado, outras que pararam finalmente, levando nos olhos um pavor incerto, qualquer coisa de espantoso e indescritível que faz parar o sangue nas artérias.
Por cada um que tomba avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é o que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja como for, custe o que custar.
A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde, depois é impossível. Tudo na vida é mudável, tudo na vida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança será homem, o lacaio será senhor, o arbusto será árvore, o ontem será hoje, o bom será mal. Ai dos que param, ai dos vencidos!
Aquela cena é bem a Vida, esta luta brutal e torturadora que começa quando o sol se ergue loiro e triunfante para só terminar às horas em que tudo parece desolado e morto.
O crepúsculo cai suavemente. Ao longe a casaria branca duma cidade adivinha-se. E as altas chaminés das fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido e gasto, como um hálito maldito e dosolador."
(Albino Forjaz de Sampayo, Palavras Cínicas)

Lei

Nascer e ficar aqui
Onde os pés sentem firmeza
Subir ao céu em beleza,
Mas em sonhos, em mentira,
Não vá deixar-nos a lira
De mal com a natureza.

Ser homem como outros homens
Na terra onde se alimenta
O sangue que nos sustenta
A pele e o coração.
Lutar por todo aquele pão
Que corre da placenta.

Dar alma a um deus dos nossos,
Por uma religião
Com bases na condição
E na dureza dos ossos.
E não rezar padre-nossos
Qualquer que seja a razão.

Trabalhar quanto é preciso
Com alegria e justiça.
Ter um pouco de preguiça
Quando o sol se descobrir.
E dar o sexo à mulher
Que mais fundo nos pedir
E mais fundo nos souber.


(Miguel Torga, Libertação)

terça-feira, maio 25, 2010

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"Olharei a morte com um rosto tão calmo (...). Submeter-me-ei a todos os trabalhos, por mais rudes que sejam, sustentando o corpo através da alma. Desprezarei igualmente as riquezas, quer estejam presentes ou ausentes, e não ficarei mais triste quando se encontrarem fora de minha casa, nem mais orgulhoso se me rodearem com o seu brilho. Permanecerei insensível às idas e vindas da sorte. Considerarei todas as terras como minhas e as minhas como pertencendo as todos. Viverei com o pensamento de que nasci para os outros e agradecerei à natureza, pois não sei como poderia ela salvaguardar melhor os meus interesses! Ela deu-me a todos, ela deu-me todos. Tudo o que tiver, nem o guardarei de um modo sórdido, nem o desperdiçarei de modo pródigo. Pensarei que nada possuo de melhor do que aquilo que dou como deve ser. Não avaliarei os benefícios, nem pelo seu número, nem pelo seu peso, mas apenas segundo a estima que me merecer aquele que o recebe. Nunca pensarei que dou de mais àquele que é digno de receber, Não farei nada por causa da opinião dos outros, farei tudo de acordo com a minha consciência. Pensarei que toda a gente me olha quando for a única testemunha dos meus actos... Na bebida e na comida terei como único objectivo a satisfação das necessidades naturais, e não encher e depois esvaziar o estômago. Serei agradável para com os meus amigos, indulgente e afável para os inimigos. Ficarei convencido mesmo antes que me peçam e anteciparei os pedidos honestos. Terei em conta que a minha pátria é o universo, governado pelos deuses que estão acima de mim e em volta de mim vigiando os meus actos e as minhas palavras. Quando a natureza me voltar a pedir a vida ou quando a minha razão a fizer cessar, partirei testemunhando que acarinhei a consciência honesta e os nobres estudos, e que não prejudiquei a liberdade de ninguém, e a minha menos do que qualquer outra." (Séneca, Da Vida Feliz)

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"[...] a morte nada é, pois todo o bem e todo o mal residem na sensação, e a morte é a erradicação das sensações. Por conseguinte, a adequada tomada de consciência de que a morte nada tem a ver connosco faz com que o carácter mortal da vida não provoque cuidados: não concedendo-lhe uma duração infinita, mas suprimindo-lhe o desejo de imortalidade. Nada há de temível na vida, para quem está verdadeiramente consciente de que nada existe também de terrível em não viver.

Estúpido é pois aquele que afirma ter medo da morte não porque sofrerá ao morrer mas por sofrer com a ideia de que ela há-de chegar. É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que não nos causa qualquer perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos, a morte não é, e quando a morte é, somos nós que já não existimos! Ela não tem qualquer relação nem com os vivos nem com os mortos, pois para uns ainda não é, e os outros já não são. E, no entanto, a multidão foge da morte como se ela fosse quer a maior das infelicidades quer o ponto final nas coisas da vida.

O sábio, pelo contrário, não teme já não estar vivo: viver não lhe pesa sem que por isso ache que é um mal não viver. Tal como não escolhe nunca a alimentação mais abundante mas a mais agradável, assim também não procura o tempo mais longo de vida mas o mais agradável."
(Epicuro, Carta sobre a Felicidade)

segunda-feira, maio 24, 2010

Vendo a Morte

Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!

(Manuel Laranjeira)

sexta-feira, maio 21, 2010

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"Coimbra, 2 de Janeiro de 1987 - Um passo a mais neste caminho da lucidez impiedosa, e fico sem pé na vida." (Miguel Torga, Diário XIV)

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"Coimbra, 25 de Maio de 1982 - Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs." (Miguel Torga, Diário XIV)

terça-feira, maio 18, 2010

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"One makes oneself a visionary
by a long, immense, and reasoned
disordering of the senses."

(Rimbaud)

segunda-feira, maio 17, 2010

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"[...] uma infância só tem um sentido, só presta, se conseguimos sair dela, se teve resultado, isto é, se deu (e nós com ela, nós pós ela) para algum lado. Ora isto não é assim como se julga. Há os que avançam um bocadinho, mas depois param na adolescência - e são rapazolas toda a vida e chegam a velhos, quando chegam, e só fizeram rapaziadas. Outros ficam sempre sendo garotos mimalhos. Nada disto é coisa de louvar - no planos sociológico (no de cada um, tanto faz). Tudo se quer a seu tempo. O pior, o difícil, é haver só (e uma vez só) um tempo para cada coisa ou estado ou atitude. Um tempo certo para cada jogada, como no xadrez. Uma táctica subordinada a uma estratégia coerente, premeditadas ambas. Uma práxis ou etiqueta. Digamos: uma teoria e a prática teimosa logo e sempre dessa teoria. Um tempo, o lugar e a fórmula: um lar e pais e beijos e brinquedos para a infância; uma luz e amigos e namoradinhas para a adolescência; uma força e um gesto e o Amor para a idade adulta; um exemplo e uma dignidade e um silêncio para a velhice. Um tempo de liberdade para cada coisa e cada um. Ou: um tempo de coragem e desespero para lutar para conquistar essa liberdade necessária a essa cada coisa, a cada um. Talvez uma Pátria. Um amigo, ou dois, não seria demais. Inimigos, os que a nossa intransigência criasse. E filhos, muitos filhos - nossos juízes, nossa aposta no futuro." (O Teodolito, Luiz Pacheco)

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"Estes velhos palácios, quase abandonados, olho-os sempre, de longe, como um sonho de conforto, de intimidade e de bem-estar: de estabilidade na vida. Independência e sossego, possibilidade de fazer a vida como seja a nosso gosto! São os meus ideais impossíveis. Um velho solar de paredes que tenham vivido muito mais do que eu, dessas paredes que têm fantasmas, e em volta um grande parque de velhas árvores, com recantos onde nunca vai ninguém. Viver o tumulto das grandes cidades e depois o silêncio, a solidão desses paraísos abandonados há muitos anos, onde entramos com não sei que inquietação, como quem desembarca numa ilha desconhecida... Ah! isso, sim, é que me dava outras possibilidades de ser, de compreender e de ir pelo meu caminho. Mas não. Por que se luta, então, para conquistar um caminho que se sabe que não é o nosso? Somos nós próprios que traímos a nossa vida. A vida não é isto, não é ganhar dinheiro. Isto é a fase primária. As necessidades físicas pressupõem-se. Gastamos as forças a tentar alcançar o que nos devia ser dado sem pensarmos nisso e que o não é porque os homens se atraiçoaram uns aos outros como inimigos. A vida é outra coisa. Mas também sou uma espécie de místico sem coragem para renunciar. O espírito manda-me quebrar estas algemas que trago nos pulsos e ir para os montes, vaguear entre as coisas da Natureza, a vê-las com o deslumbramento de quem começasse a vida em cada dia. As flores, os bichos, o sol, a chuva, as fontes, as árvores, as aves, o azul do céu, as nuvens brancas que o vento leva lá ao longe, o mar, ah! tudo isso!... Mas falta-me não sei que força, não sei que convicção de conquista ou de renúncia, pois para conquistar uma coisa é preciso renunciar primeiro a muitas outras. Quantas pessoas, porém, tenho encontrado que são como eu, quase como eu: negadas a si próprias, paradas no encontro das forças contrárias, afinal sem a decisão de quem simplesmente caminha para algum sítio onde pensou chegar. (O Barão, Branquinho da Fonseca)

sexta-feira, maio 14, 2010

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"Quem fala da felicidade tem muitas vezes os olhos tristes."
(Louis Aragon)

quinta-feira, maio 06, 2010

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"The hopeless emptiness. Hell, plenty of people are on to the emptiness part; out where I used to work, on the Coast, that’s all we ever talked about. We’d sit around talking about emptiness all night. Nobody ever said 'hopeless', though; that’s where we’d chicken out. Because maybe it does take a certain amount of guts to see the emptiness, but it takes a whole hell of a lot more to see the hopelessness. And I guess when you do see the hopelessness, that’s when there’s nothing to do but take off. If you can." (Richard Yates, Revolutionary Road)

quarta-feira, maio 05, 2010

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"Que tenho eu a ver com todas as Revoluções do mundo, se sei permanecer eternamente doloroso e miserável no seio do meu próprio ossário?" (Antonin Artaud)

terça-feira, maio 04, 2010

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Neste espaço a si próprio condenado
Dum momento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
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Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração

(Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca)

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"Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratualam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ele teria sido feliz." (Raymond Radiguet, Com o Diabo no Corpo)

quinta-feira, abril 22, 2010

Bardo

"Bardo significa entre dois estados; quer dizer, situação crepuscular e incerta que oscila entre a morte e o renascimento (...). O poeta ocidental, o que resta do bardo celta ou do seu mísero canto de cego e de vagabundo, contém a mentalidade do sonhador, baseada em experiências humanas incomensuráveis; é um produto intemporal que subleva a própria força de viver e a vontade de acreditar, de amar e de criar um mundo."
(Agustina Bessa Luís, Florebela Espanca, a vida e a obra, 1979)

"You can not go further into the bardo..."
(Terence McKenna)

quarta-feira, abril 21, 2010

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"Se os outros te não entenderem, falla contigo mesmo."
(Manuel Laranjeira, 1877-1912)

[Lindo: Where The Wild Things Are...]

terça-feira, abril 20, 2010

Love...

quarta-feira, abril 14, 2010

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"Quando, em certas ocasiões, o homem considera esta confusa história a que se chama vida como um mero gracejo, embora se aperceba nebulosamente de que afinal é ele a própria vítima desse gracejo, nada existe capaz de desanimá-lo, nada vale o esforço de uma querela. Engole então todos os acontecimentos, todas as crenças, convicções e persuasões, todos os maus pedaços visíveis e invisíveis por mais nodosos que sejam, como um avestruz capaz de digerir cartuchos e pedras de fusil. E quanto às pequenas dificuldades e aos contratempos consecutivos a um desastre sofrido, embora afectando a sua integridade, quiçá a sua vida, tudo isso e a própria morte não lhe parecem mais que os efeitos maliciosos do bom humor, das palmadas nas costas que lhe são aplicadas pelo velho e invisível farsante. Essa espécie de humor fantástico apodera-se de um homem somente nos momentos de extrema tribulação; aparece no próprio auge do seu fervor e de tal modo que aquilo que num momento antes podia parecer-lhe momentoso, agora parece-lhe unicamente um aspecto do grande e geral gracejo. Nada existe como os perigos da baleia para libertar esta espécie de filosofia genial e fácil do desesperado." (Moby Dick, Herman Melville)

[Vale a pena ver Trumbo...]

segunda-feira, abril 12, 2010

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"Sinto sincero respeito por todos aqueles artistas que dedicam suas vidas à sua arte – é seu direito ou condição. Mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida". (Augusto Boal)

segunda-feira, março 29, 2010

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"Um dos primeiros motivos foi a prodigiosa imagem da própria baleia. Esse monstro, tão portentoso e enigmático, despertava a minha curiosidade. Depois havia os mares distantes e bravios onde o seu bojo enorme flutuava e os perigos constantes da sua presença. Isso, somado aos encantos de mil sons e suspiros patagónicos, contribuiu para formar dentro de mim um desejo. Com outros homens, talvez não surtisse o mesmo efeito, mas eu sinto-me sempre irremediavelmente atraído por aquilo que é remoto e misterioso." (Moby Dick, Herman Melville)

domingo, março 28, 2010

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[Vale a pena ver The Cove...]

sexta-feira, março 26, 2010

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"Não se olhe à pequenez do primeiro passo: o que, no princípio, é bem feito, permanecerá bem feito para sempre." (Henry David Thoreau)

quarta-feira, março 17, 2010

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"Sinto-me tão feliz, meu bom amigo, estou tão absorvido pela plenitude da minha tranquila existência que nem já sei desenhar; neste momento, nem ao menos um traço poderia fazer com lápis; e, todavia, nunca me senti tão grande pintor como actualmente. [...] Amigo, que assim me vejo inundado de luz, quando o mundo e o céu vêm gravar-se-me no coração, como a imagem de uma mulher amada, então digo a mim próprio: 'Se pudesses exprimir o que sentes! Se pudesses exalar e fixar, sobre o papel, o que vive em ti com tanto calor e tanta plenitude, de maneira a que essa obra se transformasse no espelho da tua alma, como a tua alma é o espelho do Eterno!...'" (Werther, Goethe)