sexta-feira, maio 02, 2014

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"A água estava quieta e escura, lisa como um espelho. [...] viu-se reflectido nela. Foi com ternura que se observou, numa carinhosa piedade por si mesmo. Para os espelhos nunca era invisível e, diante dos espelhos, achava-se belo e triste, solitário e pobre, sem nada nem ninguém, tendo apenas por companhia a sua imagem. E era por isso que tanto gostava de banhar-se nos rios, como se mergulhar neles e agitar-se nas águas fosse a maneira de unir-se àquela imagem fascinante que nunca, senão assim quebrada por ele mesmo, era invisível e unida a ele."

(Jorge de Sena, O Físico Prodigioso)

1 comentário:

Carlota Wahnon disse...

Nas palavras de Confúcio, tudo tem beleza, mas nem todos a conseguem ver. Se os espelhos por vezes nos desiludem com a sua frieza de objecto inanimado, o reflexo da água desperta uma felicidade serena com um poder místico. Acho que a ondulação, até dum lago, reflecte de volta um pouco do amor que a natureza oferece sem pedir nada em troca.