quarta-feira, agosto 09, 2023

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Quando este sábio expele uma nova pérola, logo os seus discípulos acorrem a elogiar a nova obra.
Mas, surpresa!, desta feita, ao invés de um coro laudatório em uníssono, veio antes um zunzum, um murmúrio, e depois uma agitação. Alguns discípulos expressavam desconforto, perplexidade, espanto: a pérola tem fissuras!, está meio achatada?, está manchada, não está?, e olhe que não é mesmo, mesmo branca, ora veja lá daqui… E interpelavam o sábio: “Mas esta pérola é mesmo de sua autoria?”
A manutenção da imagem que este sábio tem de si mesmo depende de nunca reconhecer uma falha, uma limitação. Os outros é que estão errados, sempre.
“A pérola é perfeita”, esclareceu o sábio. ”Quem assim não a vir, é vítima das suas próprias imperfeições, incapaz por isso de reconhecer e apreciar a perfeição a que está impedido de aceder”.
Este não é um daqueles sábios filósofos que progridem no seu conhecimento até chegar à humildade do “só sei que nada sei”. Não!
Este é outro tipo de sábio, aquele que, estude o que estudar, leia o que ler, nunca chegará a abandonar a arrogância do “se não sei tudo, sei certamente mais do que tu.”
Porque este sábio, apesar de saber muito, nasceu e cresceu sentindo que era pouco, e não há sabedoria, nem estudo, nem leitura que transformem o reflexo desfigurado de si mesmo, que leva consigo desde o dia em que lho devolveram pela primeira vez…

sexta-feira, janeiro 20, 2023

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Passei de não querer morrer-me a não querer morrer-lhes…