terça-feira, fevereiro 07, 2017

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"He may look like an idiot, and talk like an idiot, but don't let that fool you: he really is an idiot."
(Groucho Marx)

quinta-feira, janeiro 26, 2017

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"Always remember you are unique.
Just like everyone else."
(Steven Wright)

quinta-feira, janeiro 19, 2017

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Linha amarela, casal depois dos quarenta:
- Porque sorris?
- Porque compreendo, finalmente, que não tenho de sorrir...

segunda-feira, janeiro 09, 2017

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Linha amarela, dois jovens debatem a existência de Deus até à frustração:
- A sério, não acredito que não acredites...
- Tem um pouco de fé...

quinta-feira, dezembro 15, 2016

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Pizzaria, três putos minúsculos, mesa do lado:
- Não acredito no Pai Natal.
- Não acredito no Natal.
- Não acredito.

sexta-feira, novembro 25, 2016

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Interpelava constantemente os seus contemporâneos, criticando-lhes o facto de não atentarem ao silêncio, de se distraírem com o espectáculo multiforme da vida. Na verdade, passava a vida distraído, atento aos seus contemporâneos. "Um dia, a gente há-de viver no presente", murmurava, ansiando o futuro...

terça-feira, outubro 18, 2016

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No jardim, passando por mim:
- Vamos todos morrer, filho...
- Então porque vai aquele senhor a correr?

segunda-feira, setembro 26, 2016

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Há pessoas que precisam de ajuda. Se sentires que a tua missão, nesta vida, é ajudar essas pessoas, é provável que precises de ajuda. Infelizmente, não te posso ajudar.

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Passava a vida a dizer mal delas, a apontar-lhes todos os defeitos. Defeitos que conhecia bem, como só se conhece os de quem se ama...

quinta-feira, setembro 08, 2016

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Amanhã, não sei. Hoje, tenho tudo...

quarta-feira, setembro 07, 2016

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"Um ser bidimensional, sem profundidade", concluía, olhos postos nos dela. Olhos brilhantes, como espelhos, nos quais se via reflectido.

terça-feira, agosto 30, 2016

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Tasco da esquina, mesa junto ao balcão, dois tipos meio enfrascados:
- E pokémons, já caçaste algum?
- Eu? Achas-me com cara de andar atrás do que não existe? Deixei-me disso na infância, depois dos gambuzinos... E tu?
- Eu? Só muito mais tarde... Passei a adolescência toda à procura da mulher perfeita...

segunda-feira, agosto 22, 2016

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"A sua arrogância era reservada, denunciando um exigente juízo sobre aquelas que considerava serem as suas limitações." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

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(Mercearia de bairro, centro de Lisboa, sábado passado, progenitor aproxima-se, visivelmente agitado, empurrando carrinho de bebé)

- Boa tarde, peço desculpa, rebentou-se-me o saco das compras, está tudo espalhado ali no meio da estrada, não tenho forma de levar. Não tem por aí um saco de plástico que me possa dispensar?
- Tenho: dez cêntimos...

sexta-feira, agosto 19, 2016

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"Society grows great when old men plant trees whose shade they know they shall never sit in." (Greek proverb)

quinta-feira, agosto 11, 2016

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Eu estava com pressa e não queria chegar atrasado. Ela estava com pressa e não queria chegar atrasada. Eu estava do lado de dentro. Ela estava do lado de fora. Eu achava que não ia dar. Ela achava que podia forçar. Eu achava que não devia esperar que o condutor do metro viesse desbloquear as alavancas de emergência, accionadas quando ela ficou presa, entre portas, metade dentro, metade fora. Ela achava não sei o quê. Todos achavam que era uma vergonha, que ele era uma besta, que ela estava aflita, que levava um miúdo pela mão, e o homem ainda se põe a refilar?, não há direito... Eu estava com pressa mas vou chegar atrasado. Ela estava com pressa mas vai para o ca%$£¥@...

quarta-feira, julho 27, 2016

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"O que eu gostaria de fazer era de utilizar o tempo que aí vem agora para falar de algumas coisas que me vieram à mente. A maior parte das vezes estamos com tanta pressa que nunca temos grande oportunidade de falar. O resultado é uma espécie de infindável quotidiano superficial, uma monotonia que leva uma pessoa a perguntar-se, anos mais arde, para onde foi todo esse tempo, e a lamentar que todo ele tenha passado. Agora que dispomos realmente de algum tempo, e sabemo-lo, gostaria de usá-lo para falar com alguma profundidade de coisas que parecem importantes." (Robert M. Pirsing, Zen e a arte da manutenção de motocicletas)

quarta-feira, junho 08, 2016

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Restaurante Nova Peixaria, Centro Comercial do Campo Pequeno:
- São 7 euros, senhor. Pode dizer-me o seu nome?
- O meu nome?
- Sim, senhor...
- (Pausa) Italo...
- Como?
- Italo Calvino.
- Obrigado, senhor. Chegue-se à frente com o tabuleiro...

sexta-feira, maio 20, 2016

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"O fundamentalismo, esse ímpeto cego de simplificação e dos contornos infantis da disciplina imposta, está em alta. [...] A mim sempre me faltou vocação e coragem para entrar na política. Em termos aristotélicos, essa abstenção é uma imbecilidade, uma vez que dá aos bandidos, corruptos e medíocres todos os incentivos e oportunidades para tomarem o poder. A minha política resume-se a tentar apoiar qualquer ordem social que consiga reduzir, ainda que marginalmente, a soma de ódio e dor na circunstância humana. E que ofereça espaço de crescimento para a privacidade e para a excelência. Considero-me um anarquista platónico o que, bem sei, não é uma posição muito bem vista." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

segunda-feira, maio 02, 2016

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Já não vai a correr, talvez porque já não vai a fugir...

segunda-feira, abril 18, 2016

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A vida é um longo adeus.

domingo, abril 17, 2016

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"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou." (Vergílio Ferreira, Escrever)

quinta-feira, abril 14, 2016

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"The world is a hellish place, and bad writing is destroying the quality of our suffering." (Tom Waits)

quinta-feira, abril 07, 2016

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"[...] e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto." (Raduan Nassar, Um copo de cólera)

domingo, março 13, 2016

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"Nós somos animais de linguagem, e é este atributo que, mais do que qualquer outro, faz com que o nosso estado efémero seja suportável e profícuo. A evolução no discurso humano (possivelmente tardia), dos conjuntivos, dos optativos, dos condicionais contrafactuais e das formas verbais que exprimem o futuro (nem todas as línguas têm tempos), definiu e salvaguardou a nossa humanidade. É por sermos capazes de contar histórias, sejam elas fictícias ou matemático-cosmológicas, sobre um universo criado há biliões de anos; é por sermos capazes de, como já referi, discutir e conceber a manhã de segunda-feira depois da nossa cremação; é por os nossos «se» («Se eu ganhasse a lotaria», «Se Schubert tivesse atingido a maturidade», «Se encontrarem uma vacina contra a sida») serem capazes de, a seu bel-prazer, negarem, reconstruírem e alterarem o passado, o presente e o futuro, delineando de outro modo os determinantes da realidade pragmática; é por isto que a realidade continua a valer a pena. A esperança é a gramática." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

sábado, março 12, 2016

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Brandolini's law: "The amount of energy needed to refute bullshit is an order of magnitude bigger than to produce it."

sábado, fevereiro 27, 2016

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"Não há nada que alimente maior ódio nas nossas consciências do que a percepção, sugerida por outrem, de que não estamos à altura [...] Não há nada de mais insuportável do que lembrarem-nos constantemente, perpetuamente, aquilo que devíamos ser e que, evidentemente, não somos." (George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida)

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

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"Dói tanto a reflexão e o peso exacto das coisas..."

(João César Monteiro, Corpo Submerso)

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

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"É curioso. Não creio ter já muita vida espiritual. No meu interior, tudo parece claro, sereno, vazio. São as vozes dos pássaros, é a luz avermelhada contra essa parede de órgãos barrocos, é o sabor amargo, forte e puro do café sem açúcar. Mas nem uma amargura, recordação ou inquietude. Estou suspenso num giroscópio. Estou vazio, límpido e claro. Talvez, por fim, tenha conseguido. Talvez, por narrar, me tenha libertado." (Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor)

quinta-feira, janeiro 28, 2016

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- Irrita-me essa gente que passa a vida a pôr-se em bicos dos pés...
- Não te irrites, Zé...
- Nem vergonha têm, não percebem sequer que há malta que os topa logo, de cada vez que se esticam todos...
- A maioria não topa, Zé, louva, aplaude, elogia. Nem eles próprios se topam...
- Irritam-me, se tivessem consciência de que o fazem porque se sentem pequenos, e que é isso que revelam...
- Se tivessem essa consciência já seriam um pouco maiores, Zé. Não te irrites com isso...

domingo, janeiro 24, 2016

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Exercido o direito de voto, sou violentamente invadido por uma excitação familiar, aquela que advém da consciência de que o País nunca mais será o mesmo. Ainda trémulo, momentaneamente abalado pela visão inequívoca de um futuro melhor, cruzo-me no corredor com o hipopótamo Felisberto, que, sorumbático como sempre, aguarda impaciente a sua vez....

quarta-feira, janeiro 06, 2016

O SISTEMA

(Centro de Saúde, Lisboa)

- Vai ter de aguardar, estamos sem sistema.
- Eu tive o cuidado de marcar para agora precisamente porque não podia mais tarde. Não é possível...?
- Vai ter de aguardar, não podemos fazer nada: se não picarmos aqui como é que lá dentro sabem que o utente já está aqui à espera?
- ...

quarta-feira, dezembro 02, 2015

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Eu tenho um amigo que é radical. E tenho outro que é moderado. O meu amigo radical julga-se moderado. E acusa constantemente o meu amigo moderado de ser radical.

sexta-feira, novembro 13, 2015

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"[...] a alegria de abraçá-lo, de lhe falar, de bebermos juntos. Arrastou-me para uma espécie de boîte local, o Ferro-Velho, que é curioso porque diferente (recomendo-lhes que o visitem). Vá de ceia, com cabrito assado e muito regada. Vá de bailarico: Vergílio Ferreira dançando o ié-ié. Cantando baladas coimbrãs, um fadinho rigoroso. Tocando violão. Incendiando a mesa com anedotas picantes. Rindo-se a escâncaras e fazendo rir os mais. Saltando para um banco ao dar da meia-noite, como é o ritual. Descontraído. Todo anti-angústias. Por vezes isolando-se comigo numa palestra mais atenta. Doutrinando-me. Apanhando algumas alfinetadas cá da minha lavra. Animando a solidão em que me encontrara. Deitando à socapa olhares lúbricos a uma admiradora desconhecida [...]
Em suma: encontro original, «mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção - ou não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez». Se merece relato, nesta croniqueta amena, a clandestina sortida de um escritor que nos (insistentemente) aparecia confinado num mundo de pura amargura é porque vejo moralidade nisso. É para, de propósito, mais uma vez vos fazer recordar que no Escritor, tal como ele pode querer e consegue impressionar através da palavra, coabita um homem. Um corpo que não abdica de uma alegria breve."

(Luiz Pacheco, O meu fim-de-ano com Vergílio Ferreira no Ferro-Velho, farejando a «Carta ao Futuro», 'Notícia', Luanda, 10.Fev.1968)

quinta-feira, novembro 12, 2015

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Esplanada do café, ao meu lado:

- Amigo, desculpe, não me arranja umas moedas... (analisa timidamente a receptividade do seu interlocutor, este impassível)... ou me compra qualquer coisa para comer?
- Arranjo-lhe umas moedas, se precisa. Não sou seu pai. Não quero saber em que vai gastar o dinheiro. É adulto, faz o que entender.
- Obrigado por falar assim. Não é fácil ter de pedir na rua, aos 54 anos...
- Imagino... Não tem de quê. Tome lá, é o que tenho...

quinta-feira, novembro 05, 2015

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"Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso."

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

quarta-feira, novembro 04, 2015

A SOMA

Diante da cal de uma parede que nada
nos impede de imaginar infinita
sentou-se um homem que premedita
traçar com rigorosa pincelada
na branca parede o mundo inteiro:
portas, balanças, sedimentos, jacintos,
anjos, bibliotecas, labirintos,
âncoras, Uxmal, o infinito, o zero.
Povoa de formas a parede. A sorte,
que em curiosos dons não é avara,
permite-lhe dar fim à sua porfia.
No preciso instante da morte
descobre que essa vasta algaravia
de linhas é a imagem da sua cara.

(Jorge Luis Borges, Os Conjurados)

sábado, outubro 31, 2015

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- Mestre, desculpe-me, tenho estado a pensar: porque é que eu acredito naquilo em que acredito?
- Talvez precises de acreditar, gafanhoto. Talvez precises...
- Mestre, mas porque é que eu preciso de acreditar?
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- Gafanhoto, repara no homem que se equilibra no topo daquela escada...
- Refere-se ao que se encontra a reparar a cobertura do templo, mestre?
- Sim, gafanhoto, esse mesmo. Aquela escada é a sua ferramenta de trabalho há mais de vinte anos, labor do qual depende o sustento da sua numerosa família. Vivendo inevitavelmente no limite das suas economias, não tem, nem terá nunca, dinheiro para comprar uma nova. Aquela terá de servir, mesmo estando já oca, âmago minuciosamente devorado por um incansável exército de insectos xilófagos.
- Mas é perigoso, mestre. Põe em risco a sua vida. Porque sobe então ele, se pode cair lá de cima a qualquer momento?
- ...

segunda-feira, julho 13, 2015

#mariacapaz

Dona Gertrudes, proprietária do café aqui da rua, cuida há anos de uma cadelinha rafeira muito simpática, que baptizou de Maria, e que tem o hábito de vadiar livremente pelo bairro e redondezas. Quando se lhe dá a sede ou a fome, é vê-la correr desconjuntadamente em direcção ao café da dona adoptiva. Três altos degraus a separam do interior do estabelecimento, onde dois pratos a aguardam, sempre, com água e ração, respectivamente. Ora, o problema é que Maria só tem três patas, vítima que foi de um atropelamento - ainda cachorra e já abandonada - frente ao tasco daquela que (veja-se a sorte a nascer do azar) viria a ser sua dona. Não é incomum dar com ela a debater-se, entre latidos e gemidos, para conseguir escalar aquela montanha em forma de escadaria. Habitual também é ver um freguês, assistindo desconfortável ao esforço da cadela pela primeira vez, levantar-se para ajudar. "Deixe estar que ela é capaz, senhor. Não se incomode que a Maria é capaz", atira dona Gertrudes de trás do balcão, invariavelmente...

sábado, julho 11, 2015

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Aquele momento em que subitamente te cruzas com João César das Neves numa livraria e em que ficas sem saber o que fazer: se um jab ou se um uppercut.

sexta-feira, julho 10, 2015

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O vídeo em que Guy Verhofstadt se dirige a Tsipras foi amplamente divulgado. Alguns cronistas da nossa praça não resistiram a dar destaque enviesado ao episódio. Nas suas prosas, descrevem um Tsipras constrangido, desconfortável, comprometido, esmagado até, perante a argumentação do agitado belga. Insinuam que o grego não teve outra hipótese se não a de se remeter a um revelador silêncio, não tendo o que responder a tão iluminada criatura. Não sei se é fundamentalismo, pura limitação, se subitamente lhes pára o cérebro, ficando incapazes de analisar com objectividade a situação, projectando no silencioso grego aquilo que desejam ardentemente que ele esteja a sentir, tal é a excitação que sobrevém (Tsipras estava, obviamente, e como manda o protocolo, a aguardar a sua vez de intervir - o vídeo do momento em que o faz está disponível); ou se é algo muito pior, já do domínio da abjecção, sobretudo quando se trata de alguém inteligente: a deliberada desonestidade intelectual. Eu teria vergonha...

quarta-feira, julho 08, 2015

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"The cradle rocks above an abyss, and common sense tells us that our existence is but a brief crack of light between two eternities of darkness. Although the two are identical twins, man, as a rule, views the prenatal abyss with more calm than the one he is headed for (at some forty-five hundred heartbeats an hour). I know, however, of a young chronophobiac who experienced something like panic when looking for the first time at homemade movies that had been taken a few weeks before his birth. He saw a world that was practically unchanged — the same house, the same people — and then realized that he did not exist there at all and that nobody mourned his absence. He caught a glimpse of his mother waving from an upstairs window, and that unfamiliar gesture disturbed him, as if it were some mysterious farewell. But what particularly frightened him was the sight of a brand-new baby carriage standing there on the porch; even that was empty, as if, in the reverse order of events, his very bones had disintegrated."

(Vladimir Nabokov, Speak, Memory: An Autobiography Revisited)

terça-feira, julho 07, 2015

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Há pouco, estive a ler uma história infantil muito bonita, que todos os pais deviam ler a seus filhos. Era sobre três meninos: Helmut, Georgios e José. Helmut, maior e mais forte, passava a vida a maltratar Georgios e José, que muito iam sofrendo com os abusos do brigão. Lamentando-se um ao outro, iam sonhando com um futuro em que, juntos, fariam frente ao brutamontes. Até que um dia, depois de mais um empurrão, e cansado de tanta humilhação, Georgios se ergue e se revolta, fazendo frente a Helmut. "Não, mais não. Chega!." José, presenciando a cena, rapidamente se demarca de Georgios. Repudiando-o veementemente pela sua afronta, faz saber a Helmut que, depois da sova merecida que deverá dar a Georgios, gostaria também muito de levar a sua.

quarta-feira, junho 03, 2015

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ontem uma cigana
leu minha mão
e só encontrou solidão.

(Diego Moraes)

Louro, o "jornalista"

Gostava de dedicar o seguinte microconto à autora das reportagens sobre exorcismos e possessões demoníacas publicadas no jornal 'i' no passado sábado:

Louro, o "jornalista"

Na papelaria da zona onde habito,
há um papagaio que repete o que lhe é dito.

sábado, maio 30, 2015

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Boris: Nothingness. Non-existence. Black emptiness.
Sonja: What did you say?
Boris: Oh, I was just planning my future.

(Woody Allen, Life and Death)

quinta-feira, maio 28, 2015

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"Pois se existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar uma outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta."

(Albert Camus, Núpcias)

quarta-feira, maio 27, 2015

você é a melhor coisa

amor,
você é a melhor coisa que já me aconteceu
de longe você é a melhor coisa que deus me deu

e isso pode te dar uma ideia
[ainda que vaga]
da grande merda que tem sido a minha vida

(Geruza Zelnys, Esse livro não é pra você)

quinta-feira, maio 21, 2015

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No restaurante, ao meu lado:

- Mãe, não me apetece mais...
- Se não comeres tudo chamo o subcomissário Filipe Silva.

quarta-feira, maio 20, 2015

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Carente de orientação espiritual, decidi inteirar-me da oferta de guias disponíveis, e, só assim de rajada, dei de caras com a taróloga e astróloga Maria Helena, animando as manhãs da SIC com a sua varinha mágica, com a Alexandra Solnado, que vai publicando no Facebook aquilo que Jesus lhe confidencia directamente, e com o Pe. Sousa Lara, grande exorcista que vem alertando para o avanço das forças diabólicas, enquanto afugenta demónios nas traseiras do Santuário de Lamego.

Necessitado que estava de consolo para este pobre espírito, em vez de escolher um dos três, decidi adoptá-los a todos. Se posso seguir um trio de iluminados, porque hei-de contentar-me com apenas um? Assim fiz, e de imediato comecei a agir de acordo com os seus ensinamentos. Mas a verdade é que, à medida que ia aprofundando os meus conhecimentos acerca daquilo que professam, foram chegando os problemas.

Ora, a taróloga e astróloga Maria Helena, além de oferecer amuletos em barda, dá consultas de tarô, reiki, astrologia, cura cármica, quiromancia e limpeza energética. Como se isso não bastasse, fala constantemente em Jesus Cristo, na Virgem e nos santos e apóstolos, oferecendo orações para os mais variados propósitos- o que é excelente, porque embora trabalhe com ferramentas mais esotéricas, mantém a ligação a essa forma eclesiástica de acesso ao divino. Algo que me parece dar-lhe força, dada a evidente riqueza de competências, e acrescentar-lhe credibilidade, por não renegar uma certa tradição.

O problema é que o Pe. Sousa Lara (repito: padre), responsável por distribuir a Palavra, avisou recentemente que as pessoas recorrem em massa a videntes, bruxos, tarô, terreiros, astrologia, reiki e ioga, sem o saberem, estão a abrir portas do mundo espiritual à entrada do demónio. Até usam imagens de Cristo, acusa o sacerdote. Um católico não deve, nem pode, recorrer a qualquer forma de adivinhação. A Bíblia condena essas práticas em várias passagens e qualquer adivinhação tem por detrás uma ligação ao demónio, alerta...

Pois desconfio que a senhora Maria Helena faça parte das personagens visadas pelo sacerdote nas suas palavras. Assim sendo, depositei então as minhas esperanças na Alexandra, com quem Jesus comunica directamente...

Diga-se que não ajudou grande coisa. Ora, se Jesus até a trata por "cabrita", o que me parece extremamente intimista, porque razão coloca Alexandra na sua página de Facebook as palavras que Ele lhe diz acompanhadas por imagens de pessoas em posições de ioga? Porque é que Ele não a avisa, se aquilo se trata afinal de disciplina demoníaca? E se, como afirma o Pe. Sousa Lara, essas actividades esotéricas contribuem para o aumento das possessões demoníacas, como se explica que Jesus tenha escolhido a Alexandra para comunicar connosco, uma pessoa que faz regressões a vidas passadas, cursos de astrologia evolutiva, limpezas espirituais e massagens de luz?

Enquanto vou reflectindo acerca destas questões, bebo uma mini, que se me não acaba com as dúvidas, mata pelo menos a sede...

quinta-feira, abril 30, 2015

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Uma jovem lê 1984, de George Orwell. Ao seu lado, uma outra, pouco mais velha, joga Candy Crush. A humanidade inteira viaja na linha azul do metropolitano...

terça-feira, abril 14, 2015

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"QUALQUER MANEIRA DE COMEÇAR É UMA BOA MANEIRA DE COMEÇAR. (De um manual arcaico de contadores de histórias.)
Tenho cinquenta e oito anos, um clássico da literatura à minha esquerda, sobre a mesa, fumo uma cigarrilha, estou forrado de roupão, de tranquilidade - e do silêncio um pouco embaciado pelo fumo, raspado lá fora por pneus que rangem. O som dos taipais corridos de repente, uma buzina estridente e ilegal, e a voz, feita de arranques e de paragens, do meu irmão, com movimentes de mãos e surpresas na cara, como fazia o Mickey Rooney, isso foi optem: quando este livro já andava no ar, como pássaro de papel, no espaço escolhido e geométrico de uma casa instalada na solidão da noite. Sinto-me só e decidido a apresentar, na travessia dos anos, as poucas artes fundamentais do meu papel em palcos do embaraço, do desembaraço, do alvoroço e do medo. Aceite o leitor: há privilégios habitualmente pequenos e duráveis, no reino dos olhos quietos e das horas de espanto, da música, da prata que mora nas salinas, ou que cintila em mares surpreendentes, nas árvores outonais, com folhas que voam na direcção do Inverno, ficando naturalmente pelo caminho, o frio e a lareira dos antepassados, parados numa gravura de parede, os dedos nos cabelos, a palavra no ouvido, a água pesada da mágoa do mundo, depois a dos teus olhos - inocente.
(Duas horas da manhã. As palavras procuram-se. A Dulce dorme lá dentro. Sossegadamente, espero.)

Nos últimos tempos, a minha relação com os outros (e com o mundo) é alterada amiúde pelas pausas em que me coloco - blocos de navegação onde, à deriva, a solidão trabalha. Pontos de apoio, ou de resguardo, quilhas do barco onde vou - podem ser objectos, lugares, um livro, uma conversa, a carta da minha filha que estremece nas minhas mãos, quando chega, ou um terraço de localização indefinida, onde gira eternamente a roda de uma velha bicicleta à luz da estrelas."

(Dinis Machado, Reduto quase final)

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"Escrevo porque não tenho porte de arma de fogo. Escrevo porque não ganhei um autorama no natal de 1992. Escrevo porque o Silvio Santos não leu as cartas que mandei para o programa Porta da Esperança. Já criei centenas de definições para literatura e descobri que escrever é apenas uma forma de domesticar o animal que mora no zoológico interno. Fazer carinho no bicho raivoso que rosna dentro da gente. Uma necessidade. Uma doença sem nome. E que solidão é o Posto Ipiranga para abastecimento do tanque lírico. Que solidão é o tempo para ideias surgirem como temporais que destelham casas. Não tenho horário para escrever. Sou um eterno combatente do tédio. Estou sempre estancando o vazio ruminando ideias. Sempre escrevendo no parquinho do cérebro. Qualquer mentira escutada na rua é motivo para confabular poemas, contos e roteiros. Impossível não pensar em fazer literatura num mundo que só te oferece mentiras. A saída é sempre criar mentiras com asas. Nunca fui de ter crises criativas, os socos que a vida nos dá na cara é sempre inspiração. Literatura é cão que se alimenta da ração das tragédias alheias. Bem aventurado aquele que desconta as decepções da vida escrevendo versos. Dia desses atravessei o porto de Manaus e vi crianças brincando numa canoa furada no Rio Negro. Uma hora a canoa sumiu nas águas e pensei: “escrever é apenas uma forma de naufragar lentamente. Literatura é naufrágio e o barco é você mesmo”. As crianças choraram e eu fui para o bar cheio de lindezas para um conto. O escritor é um náufrago pedindo socorro. O lance é seguir em frente colecionando catástrofes e transformando em poesia."

(Diego Moraes)

segunda-feira, abril 13, 2015

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"Na cálida ignorância do deserto a gravidade pura do silêncio."

(António Ramos Rosa)

sexta-feira, março 27, 2015

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"Os homens e as sociedades definem-se tanto ou mais pelo que calam, que pelo que dizem."

(Jorge de Sena, O Tempo e O Modo, Junho de 1963)

terça-feira, março 03, 2015

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"The point of marriage is not to create a quick commonality by tearing down all boundaries; on the contrary, a good marriage is one in which each partner appoints the other to be the guardian of his solitude, and thus they show each other the greatest possible trust. A merging of two people is an impossibility, and where it seems to exist, it is a hemming-in, a mutual consent that robs one party or both parties of their fullest freedom and development. But once the realization is accepted that even between the closest people infinite distances exist, a marvelous living side-by-side can grow up for them, if they succeed in loving the expanse between them, which gives them the possibility of always seeing each other as a whole and before an immense sky."

(Rainer Maria Rilke, Letters to a Young Poet)

segunda-feira, março 02, 2015

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"I judge the maturity of the human being by the refuse to confess. To be a grownup is not to share certain things with others."

(George Steiner)

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

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"Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança."

(Stig Dagerman, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer)

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É esgotante, a luta que um tipo tem de travar contra o corrector automático para conseguir escrever o quer. Fifa-se... Fofa-se...

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"If two people love each other there can be no happy end to it."

(Ernest Hemingway)

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"They are continually asking Art to be popular, to please their want of taste, to flatter their absurd vanity, to tell them what they have been told before, to show them what they ought to be tired of seeing, to amuse them when they feel heavy after eating too much, and to distract their thoughts when they are wearied of their own stupidity. Now Art should never try to be popular. The public should try to make itself artistic."

(Oscar Wilde, The Soul of Man under Socialism)

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"I sound my barbaric yawp over the roofs of the world."

(Walt Whitman)

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“When we realize that words can destroy something good, wonderful, and dear, and that by keeping silent we can avoid causing the least damage or harm, it’s easy to stay silent.”

(Robert Walser, Masquerade and Other Stories)

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Manhã cedo, entre sonhos: abro os olhos e vejo, aos pés do meu beliche, um tipo sentado no chão, pernas cruzadas, costas direitas, aparentando meditar...

A cena passou-se há mais de 15 anos, numa pousada da juventude em Itália, julgo que em Florença, mas disso já não estou certo...

Segurei a custo as sobrancelhas até que terminasse o ritual, simulei uma vitalidade inexistente, e perguntei-lhe o que havia estado a fazer sentado no chão àquela hora - e sobretudo porquê...

Recordo o sorriso que me devolveu... Levantar-se cedo para meditar - explicou-me benevolentemente, já não sei em que idioma - ajudava-o a resolver os seus problemas, e a encontrar o equilíbrio. Encenou uma pequena vénia, desejou-me um bom dia, e partiu resolvido...

Permaneci deitado na obscuridade, língua encortiçada pela noite de excessos, mastigando a inquietação decorrente da proposta que me havia sido apresentada. Felizmente, e apesar da escassez conjuntural de sinapses, não demorei muito a concluir que o processo não poderia nunca ser aplicado à minha pessoa. Ora, se me levantasse cedo para meditar e resolver os meus problemas, deixaria de ser preciso meditar, já que o meu principal problema era, à época, a incapacidade de me levantar cedo. E se deixasse de ser preciso meditar, porque me haveria de levantar cedo?...

Apaziguado pela impossibilidade lógica de enveredar por esse penoso caminho da disciplina matinal, recordo-me por último de ter ajeitado a almofada antes de regressar à procura paciente do meu equilíbrio, mas na horizontal...

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"I don't work with inspiration. Inspiration is for amateurs. I just get to work."

(Chuck Close)

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[...] I wish this paper would go on forever and never run out and I could just keep talking to you. Just know I’m with you. Every stream, every lake, every field and river. In the woods and in the hills, in all the places you showed me. I love you."

(Peter Kassig)

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“In the course of my work with the most violent men in maximum-security settings, not a day goes by that I do not hear reports – often confirmed by independent sources – of how these men were victimized during childhood. Physical violence, neglect, abandonment, rejection, sexual exploitation and violation occurred on a scale so extreme, so bizarre, and so frequent that one cannot fail to see that the men who occupy the extreme end of the continuum of violent behavior in adulthood occupied an equally extreme end of the continuum of violent child abuse earlier in life.”

(James Gilligan, M.D., Violence, 1996, Random House / Vintage Books, p. 45)

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"Zen question: If a man speaks in a forest but no woman hears him, is he still wrong?"

(Maura O'Connell)

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"Antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.»"

(António Lobo Antunes em entrevista à edição de Dezembro de 2014 da revista Ler)

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"Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia —
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia. [...]"

(Pois claro, Fernando...)

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"In the head of the interrogated prisoner, a haze begins to form. His spirit is wearied to death, his legs are unsteady, and he has one sole desire: to sleep... Anyone who has experienced this desire knows that not even hunger and thirst are comparable with it."

(Menachem Begin, White nights: the story of a prisoner in Russia)

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"He seems altogether exempt from the ambition of making a book, and conveys his information briefly and plainly, with the air of a man who writes, not because he wants to say something, but because he has something to say." (The London Quarterly Review, Volume 23)

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Hoje foi um dia bom: não escrevi nenhum poema mau...

terça-feira, dezembro 02, 2014

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Quando, à beira da impensável voragem do real, sobrevém a vertigem, o homem agarrar-se ao consolo das suas fantasias...

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"Remind yourself that you love a mortal, something not your own; it has been given to you for the present, not inseparably nor forever, but like a fig, or a bunch of grapes, at a fixed season of the year, and that if you yearn for it in the winter, you are a fool."

(Epictetus, Discourses)

sexta-feira, novembro 28, 2014

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Estava a palavra classe a descansar em plano inclinado, quando o c escorregou: dasse!

quarta-feira, novembro 26, 2014

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"Sem as pequeninas hipocrisias mútuas, tornar-nos-íamos intoleráveis uns para os outros."

(Emanuel Wertheimer)

sábado, novembro 22, 2014

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"There are lots of ways of being miserable, but there’s only one way of being comfortable, and that is to stop running round after happiness. If you make up your mind not to be happy there’s no reason why you shouldn’t have a fairly good time."

(Edith Wharton, Ethan Frome and Other Short Fiction)

quarta-feira, novembro 19, 2014

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"O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê."

(Umberto Eco)

sábado, novembro 15, 2014

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"[...] Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este."

(Manuel António Pina)

quinta-feira, novembro 06, 2014

OS GATOS NÃO TÊM VERTIGENS

MAS QUANDO ARRANHAM DÓI COMO O CAR$%&#

Caro António-Pedro Vasconcelos,

"São as circunstâncias que governam os homens, e não os homens que governam as circunstâncias”, terá escrito Heródoto. Pois bem: foram então as circunstâncias que determinaram que este homem, que aqui se lhe dirige, se tenha sentado numa sala de cinema para assistir ao seu mais recente filme (se assim o posso designar).

"Os gatos não têm vertigens” é uma interminável sequência de lugares-comuns, fabricada com a aparente e quiçá meritória preocupação de que o espectador nunca se distraia e nunca se perca no caminho de uns para os outros, cuidando que o mesmo nunca seja confrontado com nada, praticamente nada, que o possa levar a envolver-se em actividades indesejáveis e desnecessárias como pensar. Levado ao extremo, é assim como se o meu caro quisesse, depois de nos apresentar uma estrada plana, sem curvas, ausente de perigos e surpresas, propor-nos ainda: “venham comigo por aqui, e não se preocupem, que eu levo-vos ao colo”.

Pois, comigo, devo dizer-lhe que não resultou, e posso explicar-lhe porquê…

Ao longo do seu filme, e como deve imaginar, fui sendo consecutivamente agredido por “clichês” grosseiros e corpulentos, que me foram violentamente empurrando para fora da história (e eu tentava permanecer, eu tentava...). A determinada altura, sentindo-me já um pouco mal tratado, fruto de tanto murro, pontapé e cabeçada, não tive outra hipótese se não recorrer àquilo que o António-Pedro tanto se esforçou por que ficasse de fora desta nossa experiência: o meu pensamento. O problema é que, ao invés de convocar a razão para analisar aquilo que o seu filme me ia dando a conhecer, fi-lo por um questão de sobrevivência, numa tentativa de encontrar a melhor forma de me defender do ‘bullying’ cinematográfico de que me sentia estar a ser vítima: “não posso levar com mais nenhum ‘clichê’ desta envergadura em cima, ou vou acabar por sair daqui feito num oito”, pensei. “Já percebi por onde o homem me quer levar, e está visto que o vai fazer à bruta; pois a mim já não me apanha desprevenido".

Vivi então alguns momentos de tranquilidade, ancorado na previsibilidade do enredo fácil que o António-Pedro continuava a desenrolar sem pejo.

Mas a verdade é que a serenidade não durou muito. Aos poucos, esta foi dando lugar à perplexidade, que por sua vez se foi transformando em incredulidade. "Mas tu queres ver que o tipo vai mesmo pôr o livro do puto a ser publicado!? Não!? A sério!? Não acredito...”

E eis que o meu caro torna a aparecer no filme, desta feita sentado atrás de uma secretária, vestindo a pele do editor capaz de reconhecer o engenho e a arte (ou simplesmente pagando dívidas antigas), e faz então entrar a sua jovem colaboradora, responsável pela área dos novos talentos…

Sou-lhe sincero: já me tinha rido por diversas vezes ao longo do filme, à medida que ia recebendo as confirmações sucessivas de que o senhor não tinha vergonha nenhuma em abusar declaradamente do estereótipo, mas quando o plano nos mostra o rosto da rapariga, e com ele a mais do que óbvia promessa de amor, símbolo derradeiro da tão ansiada redenção do herói, foi a primeira vez que a minha sonora gargalhada ecoou verdadeiramente solta pelo interior da sala (praticamente vazia, diga-se: talvez porque jogava o seu Benfica)…

Depois desse momento, agora o sei, já nada havia a fazer: perdeu-se o siso e instalou-se o riso. Frame após frame, fui-me descontrolando progressivamente. Cada cena era como que uma explosão que me atirava para o lugar da histeria: o convite da velha para jantar, a miúda que lia o banal texto do puto que “sonhava com mamas”, etc., etc., etc... A excitação tomava conta de mim, e as gargalhadas, impossíveis de conter, transbordavam livremente, indo ao encontro da plateia que o António-Pedro, imagino, continuava heroicamente a tentar levar ao colo...

Não lhe sei dizer há quanto tempo não via um filme tão fraco, tão condescendente com o público, nem há quanto tempo não me levantava e abandonava uma sala antes da cena final. Mas sei o seguinte: nunca, até hoje, tinha fugido do cinema em desespero por ser incapaz de conter um grotesco e incontrolável ataque de riso. Foi uma estreia, lá isso foi…

Atenciosamente,

Filipe Feio

P. S. - Esta coisa que o António-Pedro decidiu filmar não merecia ter sido financiada, nem tão pouco merecia a Maria do Céu Guerra...

terça-feira, outubro 21, 2014

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"Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me."

(Stig Dagerman, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer)

segunda-feira, outubro 20, 2014

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"Nunca fui excessivamente infeliz - porque não tenho imaginação: não me consumia, rondando e almejando em torno de paraísos fictícios, nascidos da minha própria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago."

(Eça de Queiroz, O Mandarim)

quinta-feira, outubro 16, 2014

IDIOTIA & FELICIDADE

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor?

Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela.

Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.

Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.

O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.

Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.

Oremos.

Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.

(Alexandre O'Neill, Uma Coisa em Forma de Assim)

EXAGEROS

O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:
- Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento.
Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.

(Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin)

sexta-feira, outubro 10, 2014

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Dedicatória encontrada no interior de uma edição argentina de 1974 de La Sustancia del Zen, de Paul Wienpahl: "Ao meu amigo Silva Correia para que não se preocupe com as coisas deste mundo. Abreu (?)"

Sempre gostava de saber com que coisas de que outro mundo desejava o Abreu que o seu amigo se preocupasse...

quarta-feira, outubro 08, 2014

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Dois mosquitos presos no âmbar
Viveram felizes para sempre.

(Rui Manuel Amaral)

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Eu ainda sou do tempo em que só a mulher podia engravidar. Mas o progresso não cessa de me espantar: hoje, quem engravida é o casal. "Estamos grávidos", dizem-me. E eu escondo a náusea por detrás de um sorriso...

quinta-feira, outubro 02, 2014

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Tenho algo para dizer aos pais de crianças índigo e cristal. Se tiverem interesse em saber o que é, e uma vez que tenho esse canal à disposição, vou agora enviar a mensagem telepaticamente para os vossos filhos. Abraços e até depois...

sábado, setembro 20, 2014

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"Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontram."

(André Gide)

segunda-feira, setembro 15, 2014

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"Eu prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas."

(Wislawa Szymborska)

sexta-feira, setembro 12, 2014

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"Para aqueles que pensam, nada é sagrado."

(Wislawa Szymborska)

quinta-feira, agosto 28, 2014

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"Gould tem em fraca conta a maior parte dos escritores, poetas, pintores e escultores da Village, e não se inibe de o dizer. Como resultado de tal franqueza, nunca foi admitido como membro de nenhuma organização nem nenhum ismo artístico, literário ou cultural. Há dez anos que tenta entrar para o Raven Poetry Circle, que organiza todos os verões uma mostra de poesia em Washington Square e é a organização mais influente do género na Village, mas tem sido sempre recusado. [...] «Permitimos ao Sr. Gould assistir às nossas sessões, e gostaríamos de o poder deixar entrar para membro, mas realmente não é possível», explicou uma vez o Sr. McCrudden. «Não leva a poesia a sério. Costumamos servir vinho nas nossas sessões, e essa é a única razão por que lá vai. Às vezes insiste em ler uns poemas absurdos escritos por ele, que nos fazem perder a paciência. Na nossa Noite de Poesia Religiosa pediu autorização para recitar um poema que tinha escrito intitulado 'A Minha Religião'. Disse-lhe que sim e o que ele recitou foi:

No Inverno sou budista,
E no Verão sou nudista.

E na nossa Noite de Poesia da Natureza pediu para recitar um poema dele intitulado Gaivota. Dei-lhe autorização, e ele levantou-se da cadeira e desatou a bater os braços, aos saltos e a gritar Scriiic! Scriiic! Scriiic! Era uma coisa aflitiva. Somos poetas sérios e não achamos bem este tipo de comportamentos.»"

(Joseph Mitchell, O Segredo de Joe Gould)

terça-feira, agosto 26, 2014

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"Um dia em que passeava pelas suas terras, em companhia de um primo, o velho Hafez - que tinha na altura os seus cinquenta anos - parou no meio dum campo e divisou uma forma escura no alto de um outeiro. O objecto estava bastante afastado e nem ele nem o primo podiam dizer exactamente o que aquilo era. «É uma cabra», declarou de rompante o velho Hafez. «É um milhafre», respondeu o primo. O velho Hafez chamou-lhe cego e persistiu na sua ideia. Daí a pouco, estando eles ainda a discutir, o objecto do litígio levantou voo, sumindo-se no horizonte. «Estás a ver que era um milhafre?», exclamou logo o primo, triunfante. O velho Hafez, porém, sem a menor perturbação, retorquiu: «Era uma cabra, mesmo que tenha levantado voo»."

(Albert Cossery, Mandriões no Vale Fértil)

segunda-feira, agosto 18, 2014

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"I am too fond of reading books to care to write them, Mr. Erskine."

(Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray)

sexta-feira, julho 25, 2014

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Há dias, elaborei uma pequena lista de pessoas que não poderiam existir num mundo perfeito. Hoje, ao conhecer Gustavo Santos, imaginei-o de imediato no rol dos eleitos. Depois, vi mais uns vídeos e reconsiderei: num mundo perfeito eu tenho de poder rir-me do ridículo...

sexta-feira, julho 11, 2014

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Vertigens, arre! Sempre as malditas vertigens. Era um apartamento em quase tudo semelhante aos outros, nem sequer especialmente alto para um terceiro andar. O único problema encontrava-se, de facto, nas vistas: demasiado desafogadas, pensava. Porque quando se punha a olhar através das janelas, era para dentro de si que espreitava...

sexta-feira, julho 04, 2014

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Há noites em que vislumbro a utopia, em que sou capaz de sonhar um mundo melhor, um mundo sem injustiça, sem miséria, sem fome, sem violência, sem guerra, sem Luís Freitas Lobo, sem Camilo Lourenço, sem Pedro Chagas Freitas, sem Henrique Raposo, sem João César das Neves, sem Valter Hugo Mãe, sem Carlos Gonzalez...

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"Bem sabes como eu sou! Ora aqui está uma grandíssima presunção; e daquelas que podem ser muito fatais. Saber como nós somos! Nem nós próprios chegamos a sabê-lo."

(David Mourão-Ferreira, Tal e qual o que era)

Aubade

I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what’s really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse
—The good not done, the love not given, time
Torn off unused—nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear—no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can’t escape,
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

(Philip Larkin)